Distribuído semanalmente Recife, 20 de agosto de 2010
 
Índice das Notícias

Um leilão pela saúde de crianças
Pedro II vai ampliar atendimento
Luta contra o desespero
Vida que segue
Genética é aliada contra o amarelão
Leptospirose faz 5ª morte em Pernambuco


Um leilão pela saúde de crianças

Por Clarissa Thomé

Agência Estado

RIO – No fim do mês, o hotel Copacabana Palace, no Rio, sediará um leilão inusitado. Serão vendidas alas do Hospital Pró-Criança, em construção em Botafogo, Zona Sul da cidade, que será especializado em cardiologia pediátrica, com 40% dos leitos para atendimento gratuito. Quem "adquirir" um setor ganha o direito de batizá-lo. É mais uma cartada da cardiologista Rosa Célia Barbosa para financiar a obra de R$ 45 milhões, que começou sem que a instituição tivesse 1 centavo. O Pró-Criança será inaugurado no primeiro semestre de 2011.

Rosa veio com "essa megalomania de fazer hospital", nas palavras da própria cardiologista, em 2008. Havia sido avisada pela direção do Hospital Pró-Cardíaco, referência em tratamento do coração no Rio, que a instituição fecharia a cardiologia pediátrica – setor que havia sido criado por ela no início dos anos 90.

A médica não sabia o que fazer com as 40 crianças que atende semanalmente no Pró-Criança Cardíaca. O projeto, que completa 14 anos, surgiu no consultório particular: ela atendia crianças pobres, a pedido de amigos, médicos em hospitais públicos.

O número desses pacientes cresceu tanto que, em 1996, Rosa pediu empréstimo ao BNDES, comprou e reformou uma casa em Botafogo. Passou a atender lá as crianças carentes. Mas não bastava o cuidado ambulatorial, elas precisavam de cirurgias. Fez um convênio com o Hospital Pró-Cardíaco, que cobra apenas o custo dessas operações.

Com o "aviso prévio" do fechamento da pediatria, decidiu que construiria seu próprio hospital. "Era isso ou eu ficaria pulando de instituição em instituição." O patrono do Pró-Criança Cardíaca, o economista Paulo César do Rego Monteiro, doou os terrenos para o novo hospital, na Rua Dona Mariana – a mesma do Pró-Cardíaco, do consultório de Rosa e do Pró-Criança Cardíaca. Rosa não quis saber das sugestões de reformar os prédios velhos. Pôs tudo abaixo e abriu licitação.

Faltava o dinheiro para a obra. Resolveu chamar um conhecido dos tempos de juventude – ambos eram amigos de Carlos Imperial – para ajudá-la na tarefa de arrecadação. O conhecido era o cantor Roberto Carlos. A ideia da médica era a de que ele se apresentasse no Theatro Municipal – coisa que o Rei não tinha feito. "Sabe que não foi difícil (convencê-lo)? Ele é uma pessoa maravilhosa." O show lotou e rendeu R$ 1,7 milhão. Depois vieram outros shows e convênios. A obra já consumiu R$ 20 milhões e o hospital não tem dívidas. Para dar novo fôlego às arrecadações, Rosa inventou o leilão. (Jornal do Commercio, Brasil, 17/08/2010)


Pedro II vai ampliar atendimento

Hospital, totalmente reformado, aguarda apenas credenciamento do SUS para ativar alas do primeiro e segundo andar, onde existem 20 leitos de UTI

Ainda esta semana o novo Hospital Pedro II, pertencente ao complexo do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), nos Coelhos, Centro do Recife, deve aumentar gradativamente a prestação de serviços à comunidade. Totalmente reformado e disponível ao SUS, aguarda apenas o credenciamento do Ministério da Saúde para ativar as alas do primeiro e segundo andar, já que no térreo e subsolo clínicas foram abertas desde 2008, no decorrer da restauração.

"De imediato, vamos atender mais pacientes no Centro de Reabilitação Física e Motora", adiantou ontem o presidente do Imip, Antônio Carlos Figueira, que idealizou e comandou a reforma do histórico prédio, projetado em 1847, inaugurado em 1861 e fechado por 28 anos. O Centro de Reabilitação - implantado este ano no subsolo - acaba de receber o credenciamento do Ministério da Saúde, o que implica recursos dos SUS garantidos para a prestação de mais atendimentos. A clínica recebe, por dia, 200 pessoas com deficiência física e conta com hidroterapia, ginásio e laboratórios, além de consultórios especializados.

Para os pacientes que já usam as instalações do novo Pedro II, o visual do prédio é um presente. "Gostei muito, é uma outra vista", avaliou ontem a dona de casa Maria Helena Santana, que acompanha a filha Maria Vitória em tratamento no setor de radioterapia e, no intervalo, já pode admirar o jardim e quatro espelhos d'água. "Ficou lindo. É bom ver um cenário desses enquanto esperamos ser chamados para a sessão", completa a paciente Marineide Oliveira.

A prioridade da direção do Imip é obter o credenciamento das UTIs do Pedro II – uma com dez leitos no primeiro andar para doentes da clínica médica e outra, no pavimento de cima, com mais dez leitos para neurocirurgia, transplantes e cirurgia cardíaca. Com elas, o Pedro II poderá receber mais pessoas para tratamento nessa áreas, que hoje são atendidas, de forma mais restrita, na unidade anexa, o Hospital Oscar Coutinho.

A expectativa do Imip é colocar todo o Pedro II em funcionamento até outubro. No primeiro andar estão previstos 65 leitos de clínica médica, para 270 internamentos por mês. No mesmo pavimento devem ser atendidos mensalmente 120 pacientes em tratamento contra câncer. Num prédio anexo, o Imip pretende colocar em funcionamento uma Unidade de Cuidados Paliativos para dar suporte à ala de Oncologia, com leitos destinados a pacientes terminais. No segundo andar, além de uma unidade geral de transplantes, com bloco cirúrgico próprio, 32 leitos de enfermaria e ambulatório e hospital-dia, estão previstos um setor só para transplante de medula, enfermarias de neurocirurgia e cirurgia cardíaca, com outro hospital-dia para usuários dessas clínicas.

As obras na edificação de 21 mil metros quadrados duraram três anos, modernizaram a estrutura e preservaram traços da arquitetura original. O trabalho de recuperação custou R$ 24,3 milhões, com apoio de mais de 50 empresas, deputados, senadores, pessoas da comunidade e o Ministério da Saúde. Foram investidos ainda R$ 7 milhões na compra de equipamentos e estão programados mais R$ 6 milhões. Com o Pedro II, o complexo hospitalar terá capacidade para mais dois mil pacientes por mês. Estão sendo contratados 700 funcionários já selecionados. Na unidade, funciona desde 2008 o setor de hemodiálise. Há também espaço cultural e o setor de medicina nuclear. (Jornal do Commercio, Cidades, 17/08/2010)


Luta contra o desespero

Assim como no filme O óleo de Lorenzo, crescem os casos de pais que se negam a render-se à impotência e assistir passivamente ao sofrimento de filhos diagnosticados com doenças gravíssimas. Inconformados, chegam a criar fórmulas inesperadas para aliviar a dor

Brasília - Augusto Odone nasceu em 1933, nos Estados Unidos. Adolfo Guidi veio ao mundo em 1957, no Brasil. Nem um nem outro estudou medicina. Em 1984, aos 5 anos, Lorenzo, filho de Augusto, foi diagnosticado com adenoleucodistrofia, uma doença genética rara que inibe a produção de ácidos graxos no organismo. Em 1997, aos 8 anos, Vitor, filho de Adolfo, soube que tinha gangliosidose GN1 tipo 2, uma deficiência genética que impede a produção de enzimas essenciais ao funcionamento do corpo humano. Não havia tratamento para nenhum dos dois meninos. Os dois pais têm outra coisa em comum. Em vez de se conformar com o diagnóstico dos filhos, eles decidiram lutar. Sem qualquer conhecimento prévio na área de saúde, os dois mergulharam por conta própria em bibliotecas, e desenvolveram praticamente sozinhos fórmulas que, contrariando as previsões médicas, conseguiram barrar o avanço das doenças dos filhos.

O caminho percorrido pelos pais foi longo e penoso. "Eu não tinha o mínimo de conhecimento do que era a gangliosidose, mas simplesmente não podia ficar parado em casa vendo a doença avançar sem poder fazer nada", conta Adolfo. Diante da falta de tratamento, Adolfo deixou o trabalho de engenheiro e passou a ler tudo que conseguia encontrar na biblioteca da Universidade Federal do Paraná sobre o problema do filho. "Não existia quase nada. Todos os dias, me perguntava se aquela busca toda me levaria a algum lugar", conta o pai.

O engenheiro mecânico Adolfo Guidi, a filha Gabriele, o filho Vitor e a mulher, Gricelde: o pai largou o emprego, enfurnou-se na biblioteca da UFPR e inventou fórmula para ajudar o filho Foto: Arquivo Pessoal
Após 8 meses de busca, Adolfo finalmente viu uma esperança de tratamento para o filho. Um livro falava da doença de Tye-Sachs, outra gangliosidose rara, semelhante à que assolava Vitor. Segundo a literatura médica, a solução para limitar o avanço do problema era oferecer ao organismo a enzima que ele não podia produzir. "Diante disso, me debrucei ainda mais sobre os livros e estudei tudo que foi possível sobre enzimas até chegar à fórmula final", conta Adolfo.

A história, que poderia ter um final feliz, estava, porém, longe de terminar. "O problema a partir daí foi conseguir a enzima. Ela era muito utilizada até a década de 1950 na produção de sorvete, mas, com a invenção de produtos sintéticos, caiu em desuso", conta o pai. Na busca pela substância, ele escreveu para dezenas de laboratórios ao redor do mundo. "Procurei a imprensa, fiz campanhas. Não dava, depois de tanta luta para desenvolver a fórmula, para não conseguir botá-la em prática por não ter a enzima".

Por alguma razão, um laboratório de produtos de limpeza do interior do Paraná recebeu um vidro da substância junto com a matéria-prima enviada pela matriz, na Europa. "Nunca ninguém soube explicar porque esse material veio parar aqui, mas ele foi a salvação para o meu filho", afirma o engenheiro. "Depois que ele começou a fazer a substituição, os sintomas estabilizaram e, ao contrário dos oito meses que meus médicos deram de vida para o Vitor, ele continua bem", revela Adolfo. Lá se vão 13 anos.

Cinematográfico - A história de Augusto, pai de Lorenzo, teve um fim semelhante. Depois de anos de pesquisa, conseguiu desenvolver um óleo que limitava o avanço dos sintomas do filho - o menino, contudo, morreu no ano passado, aos 30 anos. A descoberta foi batizada de Óleo de Lorenzo - e imortalizada no filme com o mesmo nome, estrelado por Nick Nolte (como Augusto) e Susan Sarandon (como Michaela, a mãe do menino).

Enquanto o norte-americano foi reconhecido com um doutorado honorário pela Universidade de Stirling, no Reino Unido, nenhum médico se interessou por pesquisar de maneira mais profunda o tratamento desenvolvido pelo pai brasileiro. Adolfo, afastado do mercado de trabalho para desenvolver o tratamento para o filho, não conseguiu encontrar um emprego. Com ajuda de amigos, construiu uma oficina mecânica na garagem de casa, de onde tira o sustento da família.

Para profissionais da saúde, embora essas terapias alternativas nem sempre tenham a sua eficácia comprovada, elas são de profunda importância para o aumento da sobrevida e na qualidade de vida destes pacientes especiais. "Conheço vários casos de crianças que tinham um ou dois dias de vida, e já completam quatro meses. Não desistir, persistir até o fim, pode trazer resultados surpreendentes", afirma a psicóloga do Hospital Anchieta Clarice Braga Machado.

Ela lembra, no entanto, que é importante ter noção da realidade. "Os pais têm que viver o afeto pela criança enquanto ela está ali. Esses tratamentos podem ajudar a prolongar e melhorar a vida da criança, mas não resolvem o problema", afirma. Para ela, esse tipo de atitude é importante não apenas para as crianças, mas para os mais. "Isso os ajuda a lidar melhor com as limitações que seus filhos terão", completa Clarice. A especialista em medicina paliativa Maria Goretti afirma que, quando a família recebe a notícia de que os filhos têm algum problema grave, o diálogo entre a equipe médica e a família é essencial. "Os médicos fazem o que é possível, mas infelizmente a própria medicina tem os seus limites, e é importante a família ter em mente até onde podemos ir", conta a médica.

Ela lembra também que é importante pensar a que custo se quer prolongar a vida dessas crianças. "Os pais precisam ter esperanças, mas também levar em consideração qual o tipo de vida a criança está levando, à custa de que sofrimento ela permanecerá entre nós, antes de tomar qualquer decisão", afirma a médica paliativa. "Isso é uma decisão de cada um, mas médicos e família precisam estar muito cientes das decisões que estão tomando", completa.

Otimismo - Se, para os pais de Lorenzo e Vitor, foi um choque saber do problema de seus filhos, quando Kátia Gontijo foi informada que seu filho Matheus, então com 6 meses, tinha Síndrome de Down, a resposta foi um resumo de como ela o trataria dali em diante: "E daí? Ele continua sendo meu filho". Para ela, a chave para o sucesso no tratamento do pequeno, hoje com 6 anos, foi exatamente essa postura otimista. "Eu acho que ficar se vitimizando é péssimo. Aquele velho discurso de que criar uma criança especial é difícil só traz reflexos negativos, a criança se sente rejeitada", conta a mãe. Quando perguntada sobre tal dificuldade, ela traz a resposta na ponta da língua. "Não é mais difícil, é mais desafiador", resume.

Com a notícia da alteração nos cromossomos do filho veio a lista de dificuldades inevitáveis que ele iria enfrentar. "Essas crianças sofrem de hipotomia, ou seja, flacidez muscular. Além disso, eles têm tendência à obesidade", conta a mãe. Inevitáveis ou não, a mãe não aceitou que aqueles problemas atingissem seu filho. "Quando ele tinha 1 ano, fui fazer um curso de massagem e levei o Matheus comigo. No intervalo, uma das participantes do curso foi brincar com ele e começou a fazer exercícios e massagens de ioga nele", relembra Kátia.

"Quando conversamos, ela me disse que esse era um tratamento muito comum nos Estados Unidos. A partir daí, fui atrás das técnicas. Viajei para a Austrália e para os EUA para aprimorar meus conhecimentos nessa terapia", conta a mãe. "Os resultados são incríveis. Ele nunca teve problemas que as crianças com Down normalmente têm, como pneumonia e imunidade baixa", completa. Já a ioga ajuda no fortalecimento dos músculos. "Eu já cheguei a ser parada por médicos na rua, porque, quando viam o meu filho brincando, percebiam que ele tinha força muscular normal para uma criança na idade dele", afirma.

Depois do sucesso com os seus filhos, Adolfo, Augusto e Kátia ampliaram as terapias que desenvolveram para outras crianças. A substituição enzimática proposta por Adolfo hoje é utilizada por crianças de todo o país que procuram o paranaense. "Os médicos continuam não acreditando nos efeitos dela, mas se não faz nenhum mal, por que não tentar?", alega. Kátia hoje tem um estúdio de ioga que atende a outras crianças e adultos com problemas degenerativos e paralisias e Síndrome de Down. "Muitos pais são impacientes e esperam uma solução de um dia para o outro, mas, se substituírem a expectativa por esperança, a chance de sucesso é muito maior", conta a mãe.

Já o Óleo de Lorenzo ajuda crianças de todo o mundo, como o pequeno Kelvi, 7 anos, morador de Santo Antônio do Descoberto. "Ele tem o mesmo problema do Lorenzo, e médicos do Hospital de Base recomendaram o uso do óleo", conta Edilson, pai do garoto. "Ele usou por um ano e foi muito útil, mas, infelizmente, quando descobrimos a doença ela já estava muito avançada", completa Edilson. Por complicações no fígado, o garoto teve que suspender seu uso.

Apesar disso, a família acredita que o efeito da substância desenvolvida por Augusto Odone foi essencial para a qualidade de vida do garoto. "Se ele tivesse começado a tomar mais cedo, teria sido mais eficaz, mas, mesmo assim, hoje a doença praticamente se estabilizou, e ele consegue controlá-la apenas com outros medicamentos", completa Edilson. (Diario de Pernambuco, Brasil, 17/08/2010)


Vida que segue

Livro mostra histórias reais de pacientes renais crônicos que encontraram uma alternativa segura e confiável para as longas sessões de hemodiálise que precedem um transplante. A diálise peritoneal, feita em casa e ainda pouco conhecida, facilita retomada da rotina

por Tatiana Sabadini

Brasília - Um problema crônico nos rins parecia motivo suficiente para a vida de Diacízio Alves de Oliveira, 58 anos, parar. O trabalho, o tempo com a família ou as manhãs de sábado e domingo reservadas para fazer uma de suas atividades favoritas, nadar no mar aberto de Salvador, seriam trocadas por horas no hospital. Ele nunca poderia imaginar que, três anos depois, o registro do seu mergulho nas águas da praia do porto da Barra, na Baía de Todos os Santos, com um cateter no abdômen, estaria na capa de um livro. As braçadas, assim como aquela da foto, continuam graças a um tratamento pouco conhecido pelos pacientes que sofrem de doenças renais, a diálise peritoneal. Um passo a mais para ter a chance de, finalmente, conseguir um transplante. A história do baiano e de outras 15 pessoas, de vários cantos do Brasil, foram registradas pelas lentes de André François, fundador da Organização ImageMágica.

O resultado de 18 meses de viagem acaba de ser publicado no livro Escolher e viver - Tratamento e qualidade de vida dos pacientes renais crônicos, patrocinado por uma empresa da área da saúde. O fotógrafo capturou a rotina de pacientes renais crônicos que escolheram uma alternativa às horas de espera no hospital para receber a hemodiálise. O projeto começou quando André preparava outro livro sobre o acesso à saúde no Brasil. Em uma viagem à pequena cidade de Barreirinha (MA), ele conheceu uma jovem mãe que precisava deixar a família três vezes por semana e percorrer a estrada por oito horas até chegar ao hospital em São Luís, onde fazia o tratamento de hemodiálise. "Ela não tinha opção, precisava daquilo para viver e eu pensei: "Podiam inventar alguma coisa que facilitasse a vida de pessoas como a Maria. Por que diabos não melhoram esse sistema?".

E descobri que exista uma alternativa, a diálise peritoneal, mas pouquíssima gente conhecia aquilo", conta André. Assim como Maria, Diacízio passou pelo mesmo sofrimento. Ironicamente, o produtor de peças de acrílico cansou de contar as vezes que produziu bandejas para máquinas de hemodiálise. "Eu ia àquelas salas para fazer a instalação do material e dava para ver o sofrimento das pessoas. Nunca poderia imaginar que um dia poderia precisar daquilo", revela. Quando foi diagnosticado, em 2006, os médicos tentaram resolver com remédios, mas pouco menos de um ano depois os rins falharam. Era hora de escolher um tratamento para esperar por um transplante. "Foi um choque muito grande e, depois de muito pensar, escolhi a diálise peritoneal", conta.

Substituição - Quando o rim falha, é preciso encontrar um substituto. Se o tratamento com medicamentos e dieta restrita não funciona, existem duas alternativas para substituir as funções do órgão que filtra o sangue: transplante ou diálise. Como encontrar um doador compatível é um longo caminho, resta a última opção. A forma mais tradicional é a hemodiálise. O paciente precisa ir a uma clínica ou a um hospital três vezes por semana e fazer sessões - que podem durar até 4 horas. Para fazero procedimento, é preciso colocar um cateter ou uma fístula no braço para se conectar à máquina de filtração.

Na diálise peritoneal, no lugar da máquina para filtrar o sangue, é usada uma membrana localizada dentro do abdômen e que reveste os órgãos internos, o peritônio. Um cateter é colocado na barriga e diariamente é feita a infusão de um líquido purificador - após algumas horas, o material é retirado pelo próprio cateter. É um processo contínuo, que pode ser feito pelo próprio paciente, por um cuidador ou até mesmo de forma automática, com uma máquina chamada de cicladora (que funciona à noite, quando a pessoa dorme). Durante um ano e 10 meses, Diacízio fez diálise enquanto dormia. Voltou a trabalhar e, mesmo depois escutar todas as preocupações médicas, continuou a nadar os 500m de sempre. "Me disseram que poderia ter risco de infecção, mas tenho uma sobrinha enfermeira que disse: 'Tio, tem um jeito de você tomar seu banho de mar, sim'. Ela arrumou uma fita que vedava o cateter , me mandou uma caixa e deu certo.

Até o médico aprovou no fim", brinca o produtor. Hoje, menos de um ano depois de receber o rim do irmão, ele garante que está 100%. "Estou muito bem, até fazendo faculdade de direito, à noite. O mais importante não é estar na capa do livro, mas servir de exemplo para milhões de pessoas que têm doenças renais. É preciso ter coragem, encarar o problema com naturalidade e força de vontade e disciplina", aconselha Diacízio, que foi convidado pelos médicos para ajudar outros pacientes no curso de treinamento para o tratamento alternativo. No ano passado, cerca de 70 mil brasileiros fizeram diálise e apenas 4 mil utilizaram a opção peritoneal. "Realmente, é um método pouco difundido. O número é mesmo pequeno. O grande problema é o custo, porque sai um pouco mais caro, mas os pacientes precisam saber que existe essa opção. E é um tratamento que também está disponível na rede pública", afirma Daniel Rinaldi dos Santos, especialista e secretário-geral da Sociedade Brasileira de Nefrologia.

Temor infundado- Ainda existe um certo preconceito e receio por parte dos pacientes em fazer o tratamento em casa, mas, segundo o nefrologista, o método é seguro e o efeito é o mesmo da hemodiálise. "O paciente ou alguém da família é treinado para fazer o procedimento e tudo é feito de uma forma muito tranquila. Ainda melhor: em casa. O médico vai estar à disposição para as eventuais dúvidas. Acredito que a diálise peritoneal dá mais liberdade para a pessoa. Você não precisa se deslocar para o hospital e pode muito bem fazer à noite e voltar a trabalhar e fazer suas atividades de dia", comenta Rinaldi. Para André, a falta de informação é um problema grave. "Essa é uma questão muito grave da saúde pública. Os médicos não indicam o tratamento correto e o paciente tem todo o direito de escolher", afirma o fotógrafo. Para ele, o livro vai quebrar alguns paradigmas em relação ao problema renal crônico. "A minha ideia era mostrar que é possível viver com a doença, fazer o tratamento em casa e deixar de lado esse mito de que a vida de quem tem a doença precisa parar por completo", diz. No caso de Silvio Gurgel Coelho, 47 anos, não existia outra opção. A filha Vitória, 13 anos, nasceu com problemas neurológicos, que até hoje não têm explicação certa. "Quando ela completou 6 anos, apresentou distúrbios renais e, um ano depois, os rins ficaram paralisados. Foi um desespero para mim e minha mulher, porque ela nunca ia poder ficar quatro horas parada em uma máquina de hemodiálise. A melhor coisa que poderia ter acontecido foi a diálise", conta o servidor público, que mora em Fortaleza com a família. Vitória fez o tratamento por quatro anos e meio, até conseguir receber o transplante de rim do pai, em 21 de janeiro de 2009.

Desde então, leva uma vida normal, cresceu 20cm e engordou 20kg. "Foi meu presente, porque o aniversário dela era dia 12. Foi uma benção", conta Sílvio. Ele faz questão de aconselhar outros pacientes renais a se cuidarem e escolher a diálise. "É a melhor opção para os pacientes. As clínicas e os médicos deveriam apresentar mais essa opção de tratamento. E tudo feito em casa, sem deslocamento para hospital. O sangue não sai do seu organismo e você está sendo tratado pela sua família. É preciso fazer um alerta para toda a população", declara o servidor. (Diario de Pernambuco, Brasil, 20/08/2010)


Genética é aliada contra o amarelão

por Flávia Ayer

Belo Horizonte - A identificação de 20 mil conjuntos de genes do verme Necator americanus, por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), representa o mais novo passo no combate à ancilostomíase, doença popularmente conhecida como "amarelão". O sequenciamento genético de um dos principais causadores da doença abre caminho para o desenvolvimento de novos remédios. O mal se tornou muito famoso no país devido ao personagem Jeca Tatu, caipira avesso a sapatos e a hábitos de higiene criado por Monteiro Lobato. Das páginas da ficção para a vida real, a estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) é de que haja 740 milhões de pessoas contaminadas pelos parasitas. Um dos trunfos do estudo, feito em conjunto com a Universidade de Melbourne, na Austrália, e com a Escola de Medicina da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, foi a descoberta de 18 proteínas diferentes daquelas sintetizadas por humanos e outras espécies.

Nas mãos dos cientistas, as substâncias servem de pista para a criação de medicamentos que inibam a ação do parasita sem agredir o organismo do homem. A pesquisa se concentrou em investigar o material genético do nematelminto Necator americanus, tipo mais comum no Brasil. Com lâminas afiadas, o verme - que, na idade adulta, mede no máximo 2cm - entra no organismo por meio da pele e se instala no intestino do hospedeiro, alimentando-se de sangue. Em casos mais graves, o consumo diário chega a 250ml, levando a pessoa a quadros de anemia e à aparência amarelada responsável pelo nome popular do mal.

A coordenadora do estudo, Élida Mara Leite Rabelo, professora associada do Departamento de Parasitologia do Instituto de Ciências Biológicas é enfática: "Para combater, é preciso conhecer. Ao saber a função de cada gene do parasita, posso compreender melhor como ele consegue sobreviver no organismo humano e pensar em mecanismos para interromper seu ciclo". As aplicações do estudo, entretanto, não param por aí. Ela explica que, com a identificação de 18 proteínas produzidas especificamente pelo verme, também é possível pesquisar drogas contra o nematelminto. "Um dos problemas é a alta reincidência da doença, que pode levar ao desenvolvimento de resistência do verme ao medicamento. Por isso, a necessidade de descobrirmos novas drogas. As únicas usadas atualmente são o mebendazol e o albendazol", ressalta.

Antes da pesquisa, somente cerca de 800 sequências de genes do Necator americanus haviam sido identificadas. O salto para o reconhecimento de 20 mil novos fragmentos ocorreu com o uso de tecnologia de ponta, mais especificamente o aparelho de sequenciamento paralelo em massa, capaz de decodificar um número maior de sequências de uma só vez. As sequências de códigos genéticos são depositadas no banco de dados do Centro Nacional de Informação Biotecnológica (NCBI, na sigla inglês) e ficam disponíveis para cientistas do mundo inteiro. Por meio dessa grande biblioteca pública de DNA, é possível cruzar o material genético do verme com o de outros organismos. Foi assim que o grupo de pesquisadores, incluindo a professora da UFMG, conseguiu levantar 18 proteínas exclusivas do principal responsável pelo amarelão no país.

Etapas complexas - Muito é feito antes de o material genético ser lido pelo aparelho de sequenciamento. O trabalho, executado em escala milimétrica, começa ao retirar-se do nematelminto o ácido ribonucleico (RNA) do tipo mensageiro. Trata-se de material genético bem específico, responsável por levar informações do gene, entre elas a receita para a síntese de proteínas, até o citoplasma da célula, onde as substâncias serão fabricadas. "O RNA mensageiro é uma cópia resumida do DNA", explica Élida Rabelo.

Com o auxílio da enzima transcriptase reversa, as moléculas de RNA, com uma só fita, são transformadas em DNA complementar (cDNA), de duas fitas. Também chamada de transcriptoma, essa nova estrutura é encaixada a um plasmídeo, mólecula de origem bacteriana que, nesse caso, funcionará como vetor para a reprodução do material genético do Necator americanus. A fusão de material genético do verme com o plasmídeo é inserida em bactérias, que se reproduzem até a formação de grandes colônias. Uma vez replicados em larga escala, a próxima etapa é retirar os plasmídeos contendo genes do verme de dentro das bactérias. O resultado desse processo é a chave de leitura para o aparelho de sequenciamento paralelo identificar o código genético do parasita. (Diario de Pernambuco, Vida Urbana, 20/08/2010)


Leptospirose faz 5ª morte em Pernambuco

Vítima foi um homem de 30 anos que faleceu em julho, em Barreiros

Por JULIANA ARETAKIS
TRÊS mortes estão relacionadas às últimas enchentes
Após as fortes chuvas que atingiram os municípios da Mata Sul de Pernambuco, outra grande preocupação anda fazendo parte da rotina dos moradores dessas cidades. A probabilidade de contrair doenças aumentou e, para a apreensão, sobram motivos. Ontem, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) confirmou a quinta morte provocada pela leptospirose apenas nesse ano. O último óbito foi de um homem, de 30 anos, que faleceu no dia 11 de julho, na cidade de Barreiros, uma das mais castigados pelas últimas enchentes. Junto a este óbito, outras duas mortes, uma no município de Gravatá, confirmada em julho, e outra em Primavera, atestada neste mês, também foram relacionadas às chuvas no Estado. As outras duas mortes confirmadas neste ano aconteceram nas cidades de Paulista e Timbaúba.

Os números da doença continuam crescendo e as estatísticas alertam. Apenas em 2010 já foram registrados pela SES 552 casos da doença, sendo 92 deles confirmados. No mesmo período de 2009, o número de notificações ficou em 526, com 175 confirmações e 12 óbitos registrados. Por causa das chuvas, a SES intensificou as ações de prevenção e monitoramento das doenças. Em relação a leptospirose, a Região Metropolitana do Recife e as cidades do Interior estão passando por um processo de desratização, que corresponde a colocação de venenos e iscas para ratos.

Mas de acordo com a diretora geral de Vigilância Epidemiológica e Ambiental da SES, Rosilene Hans, outras ações também devem estar inseridas no dia-a-dia da população. "As pessoas têm que evitar entrar em contato com a água contaminada desprotegidas. É importante que elas amarrem sacos plásticos nos pés. A lavagem de locais com lama deve ser feita sempre com água sanitária, além disso os moradores das cidades atingidas pelas cheias devem ter cuidado especial com o lixo e colocá-lo para fora apenas na hora que o caminhão passar nessas áreas para fazer a coleta, para que ele não se espalhe", explicou. Hoje, a SES conta com mais de 20 profissionais de saúde atuando nas cidades da Mata Sul de Pernambuco.

DENGUE

Os casos de dengue também continuam aumentando no Estado. De janeiro até esse mês o número de notificações já revelou um aumento de 511% em relação ao mesmo período de 2009. Até agora foram notificados 38.191 casos de dengue clássica, com 9.210 confirmações laboratoriais. No caso da dengue hemorrágica, são 277 suspeitas e 53 confirmações. Neste ano, três pessoas já morreram por causa da dengue. Outros 45 óbitos estão sendo investigados. Em 2009, neste mesmo período, não houve notificações ou óbitos causados pela doença. Entre os municípios com mais notificações estão Recife, Caruaru, Jaboatão dos Guararapes, Salgueiro e Petrolina. (Folha de Pernambuco, Grande Recife, 20/08/2010)
 
 
 
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