Distribuído semanalmente Recife, 10 de maio de 2010
 
Índice das Notícias

Apevisa e PF investigam outro desvio
Automedicação: prática é perigosa
Liberado produto de conveniência
Hospital sob suspeita por potes com restos humanos
Mais modernas e seguras
Estímulo de filhos a casais com HIV
Espasmos, não tiques
40% da população do Brasil é alérgica
Tabagismo - uma questão de saúde pública


Apevisa e PF investigam outro desvio

O esquema milionário de desvio de medicamentos de grandes hospitais públicos, desarticulado quinta-feira passada pela Polícia Federal e Agência Pernambucana de Vigilância Sanitária, pode ter outra ramificação. PF e Apevisa avaliam hoje milhares de remédios apreendidos sexta-feira, durante ação conjunta das Polícias Civil e Militar na Mustardinha, Oeste do Recife.

O delegado seccional do Prado, Bruno Chacon, já informou a apreensão à PF. “Tudo indica que o material tem ligação com a quadrilha desarticulada pela Polícia Federal. Ela verificará a origem dos medicamentos”, afirmou.

Policiais da Delegacia Seccional do Prado e do 12º Batalhão da PM realizavam rondas na Zona Oeste do Recife com o objetivo e evitar os Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) – homicídios, latrocínios e lesões seguidas de morte –, quando receberam a informação de que havia uma casa na Mustardinha que era utilizada como depósito de remédios. No local foram encontrados dois mil medicamentos, entre comprimidos e ampolas, além de seringas. Havia produtos como Zylpen, Duo-Decadron, Bextra e Pulmicort. Parte têm prazo de validade para este mês, já outros vencem somente em 2012. Segundo Chacon, ninguém estava na residência. “Os responsáveis por isso deveriam responder por crime contra a vida porque tem gente morrendo sem acesso a remédios”, destacou o delegado. A partir dos lotes, o gerente da Apevisa, Jaime Brito, checará, com o fabricante, o mapa de distribuição, para saber de onde as drogas foram desviadas. (Jornal do Commercio, Cidades, 03/05/2010)


Automedicação: prática é perigosa
Em muitos casos, a sobrecarga de remédios pode deixar pessoas imunes

Por BÁRBARA FRANCO
Dor de cabeça, irritação muscular e até mesmo inflamação na garganta. Esse são alguns dos sintomas considerados comuns entre a população que de imediato encontra uma solução simples: a automedicação. Ir à farmácia e adquirir remédios sem orientação médica não é uma atitude rara, mas essa é uma prática que pode ser considerada bastante perigosa. Dados da Associação Brasileira das Indústrias Farmacêuticas (Abifarma) demonstram que a cada ano, cerca de 20 mil pessoas morrem no País vítimas do uso incorreto de medicamentos. Em alguns casos, a sobrecarga de remédios desnecessários podem deixar as pessoas imunes àquela medicação e não mais repercutir efeitos contra determinados sintomas.

Integrantes de quase 80 municípios pernambucanos se encontraram na Secretaria Estadual de Saúde (SES) para uma discussão sobre a ética da prescrição médica. O tema foi abordado em lembrança ao dia 5 de maio, em que se comemora o uso racional de medicamentos. “Todo medicamento tem efeito colateral, a diferença entre os remédios e os venenos é a dosagem”, afirmou o gerente de assistência farmacêutica da SES, José Arimatea. Foi explicado que é importante a consciência desse consumo e que o uso indiscriminado de remédios pode trazer prejuízos à saúde do paciente. “É preciso que as pessoas se desapeguem do uso frequente de remédios, usar apenas o que é necessário para não adoecer e não em qualquer situação”, afirmou.

No ranking dos casos de intoxicação, no Brasil, os medicamentos estão em primeiro lugar, com números de casos sobressaindo os agrotóxicos. “Entre 22% e 25% das ocorrências são notificadas são por razão do uso de medicamentos em geral, um consumo de maneira irregular. As pessoas estão acostumadas a utilizar remédios, preferem comprar vitaminas nas farmácias e não procuram as frutas, por exemplo”, comentou o diretor da Sociedade Brasileira de Vigilância de Medicamentos, José Augusto Barros.

A técnica em enfermagem Geórgia Santos Rangel, de 19 anos, saiu de Brejinho, a 411 quilômetros do Recife, no Sertão do Estado, para acompanhar o evento e ficou satisfeita com as informações adquiridas. “É um aprendizado a mais para a gente passar para a população. Ainda falta muita orientação, muitas vezes os pacientes insistem em pegar algum medicamento sem prescrição, mas eu sempre barro. É preciso uma declaração médica para que eles adquiram”, disse. A SES distribuiu cartilhas com recomendações sobre o uso incorreto de medicamentos que serão distribuídas nas nove farmácias do Estado e nas unidades de saúde dos municípios. (Folha de Pernambuco, 02/05/2010)


Liberado produto de conveniência

A venda de produtos de conveniência em farmácias está novamente liberada. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) revogou parcialmente a decisão que determinava o cumprimento de uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), proibindo o comércio de produtos que não se encaixam como medicamentos nem estão na lista de exceções (de alimentos especiais a produtos de higiene). Mas a decisão mantém a determinação de que remédios fiquem atrás do balcão e não em gôndolas. (Jornal do Commercio, Capa dois, 07/05/2010)


Hospital sob suspeita por potes com restos humanos
Goiás // Materiais biológicos como tumores, apêndices e sete fetos foram achados em banheiro por Guilherme Goulart

Cristalina (GO) - Duas promotorias de Cristalina, município goiano a 137km de Brasília, investigam supostas falhas e omissões no único hospital da cidade. A apuração, iniciada há cerca de um mês, aprofunda erros grosseiros na condução de partos e no armazenamento de materiais biológicos no Hospital Municipal Chaud Sales.
Dezoito funcionários do hospital acabaram afastados dos cargos. E não se descarta a hipótese de abertura de um inquérito criminal, pois há suspeitas em relação ao funcionamento de uma clínica de aborto no local.

A descoberta da série de problemas ocorreu por conta de uma denúncia que chegou à 1ª e à 2ª Promotorias Criminais de Cristalina no início de abril. A família de uma adolescente pediu ajuda ao Ministério Público local depois que a menina de 15 anos sofreu um parto prematuro no hospital. "Eles queriam o corpo para ser sepultado, e o hospital não liberou. Em 7 de abril, expedi uma recomendação para a diretoria técnica do hospital explicando a razão pela qual a liberação deveria ser feita", afirmou a promotora Marizza Fabianni Maggioli, da 1ª Promotoria Criminal.

A Procuradoria-Geral do município soube do caso e se uniu ao Ministério Público para o cumprimento do mandado de busca e apreensão no Chaud Sales na última sexta-feira. A promotora Marizza, acompanhada da colega Ariete Cristina Rodrigues do Vale, da 2ª Promotoria, encontraram em um banheiro desativado sete fetos e mais de uma centena de materiais biológicos, entre placentas, tumores e apêndices. Estavam acondicionados em potes de vidro comuns, mergulhados em formol e dentro de caixas de papelão.

Nem todas as embalagens localizadas durante a operação tinham a identificação de famílias. Mas se identificou a presença de materiais biológicos retirados entre 2006 e 2010. "É difícil agora falar de responsabilidade ou de tipos de falhas. Mas há, no mínimo, uma conduta médica inadequada e material de curetagem acondicionado de forma errada. Tudo isso vai ser investigado e encaminhado para uma biópsia. Era o que deveria ter sido feito desde o início", explicou a promotora Ariete.

As cinco caixas retiradas do Hospital Municipal Chaud Sales ficarão por enquanto em uma das salas destinadas às promotorias criminais do Fórum de Cristalina. Em seguida, serão encaminhadas para análise do Instituto de Medicinal Legal (IML) de Luziânia (GO). Caso não existam equipamentos, tecnologia ou espaço para a perícia no município distante 66km de Brasília, o material terá de ser levado para Goiânia (GO).

As duas promotoras passaram parte da tarde de ontem envolvidas com a análise e o recolhimento de documentos pertencentes ao arquivo da administração. "A fase agora é de proteção de provas. Estamos fazendo uma busca minuciosa nos registros do hospital e nas guias de atendimento. O que atrapalha um pouco é o fato de o arquivo ser muito desorganizado", disse a promotora Ariete. (Diario de Pernambuco, Brasil, 07/05/2010)


Mais modernas e seguras
Avanços tecnológicos no material fazem com que próteses de silicone sejam assimiladas pelo organismo com naturalidade. É preciso acompanhamento constante, porém, para definir a necessidade de trocá-las

por Márcia Neri

As próteses de silicone despertam fascínio e são objeto de desejo de milhares de mulheres. Seja para aumentar, modelar ou sustentar os seios, ou para reconstruir as mamas depois de uma mastectomia radical, a cirurgia se revela grande aliada da autoestima feminina. Daniela colocou próteses de 350ml e depois as diminuiu: mais confiança. Foto: Elio Rizzo/Esp. CB/D.A Press As próteses implantadas hoje pouco lembram às usadas décadas atrás. Atualmente, as cápsulas são mais seguras, aderem melhor ao tecido mamário e são disponibilizadas em formatos variados, para se adaptarem melhor às necessidades de cada paciente. Fabricantes e especialistas não determinam mais validade, mas nenhuma prótese, no entanto, é eterna. É preciso estar atenta ao momento de substituí-la.

Daniela colocou próteses de 350ml e depois as diminuiu: mais confiança.
Foto: Elio Rizzo/Esp. CB/D.A Press
A evolução do material usado contribuiu para que a intervenção conquistasse de vez a prioridade feminina quando aassunto é cirurgia plástica. Dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica revelam que, no Brasil, são realizados cerca de 460 mil procedimentos estéticos a cada ano. O aumento de mama, que representa 21% deles, é o mais executado pelos cirurgiões, superando a lipoaspiração (20%) e a cirurgia de abdômen (15%). A troca das próteses é considerada mais simples do que a primeira colocação.

A cirurgiã plástica especialista em mama Débora Cristiam Galvão explica que os médicos normalmente estipulavam o prazo de uma década para a substituição dos implantes, porque não sabiam como o organismo responderia ao corpo estranho que é a cápsula implantada. "Hoje, sabemos que a validade das próteses depende de cada paciente. Para algumas, passados 10 anos os seios estão perfeitos, sem qualquer alteração. Outras precisam substituir os implantes em três ou quatro anos. O importante é observar os sinais emitidos pelo próprio corpo e fazer exames para avaliar se é ou não chegada a hora de submeter-se ao novo procedimento",garante.

As próteses de última geração são preenchidas com silicone coesivo, mais macio e natural. O revestimento que protege o gel siliconado é texturizado, que dá maior aderência nos tecidos internos - glândulas, gordura e músculos, evitando o deslocamento e inibindo o endurecimento. Ainda assim, Débora pondera que o corpo reconhece e se defende contra objetos estranhos. "É um processo natural. Ao redor da prótese implantada, o sistema de defesa cria uma cápsula orgânica, com consistência de clara de ovo, que ajuda os tecidos a entenderem que o implante não é uma ameaça", explica. "Em determinado momento, que varia de paciente para paciente, a tendência é que essa cápsula fique espessa e endurecida. É o que chamamos de contratura capsular. Isso pode ocorrer com dois, três, 10 ou até 20 anos após o implante. Quando acontece, é hora de trocar a prótese."

Avaliação permanente - Existem exames que ajudam os médicos a verificar a situação da prótese. Desconforto, dor e mudanças perceptíveis ao toque são sinaisde alerta. Mamografias anuais e ressonâncias magnéticas a cada cinco anos podem detectar uma ruptura ou mesmo microvazamentos. "E ainda que eles ocorram, a cápsula orgânica protege o organismo. O silicone que está no interior das próteses de última geração não faz mal à paciente. Não há motivo para desespero. Diante desses sinais, a substituição deve ser feita sim, mas é importante frisar que a mulher não corre riscos. Pode-se planejar a troca com calma", reforça.

Quando a paciente não fica feliz com o resultado por conta das características da prótese, a substituição é feita sem problemas também. Foi o que ocorreu com a empresária Daniela Machado, 30 anos. Depois de ter dois filhos, ela percebeu que os seios ficaram menores, mais flácidos e não teve dúvidas: as próteses ajudariam a recuperar a autoestima. "Era casada com um norte-americano e fiz a cirurgia nos Estados Unidos. Talvez influenciada pelo cirurgião e pelo meu marido, optei por uma prótese de 375ml. Os seios ficaram enormes, não me adaptei e andava curvada. Dois meses mais tarde, troquei por uma prótese de 250ml que combinou com o meu perfil. Adorei o resultado e acho que as mulheres devem lançar mão desse recurso. A vida muda, ficamos mais confiantes", avalia.

Ela lembra que é importante ter confiança no especialista. "Procure sempre uma segunda opinião, avalie a qualidade das próteses usadas pelo cirurgião e tire todas as dúvidas. Não adianta colocar próteses que destoam do resto do corpo. O médico deve orientar a paciente em relação a isso também. Hoje, existem vários formatos que se adaptam a todos os biotipos", acrescenta.

As próteses podem ser colocadas entre a glândula mamária e o músculo ou atrás do músculo. Segundo a cirurgiã plástica Ivanoska Filgueira, o corte varia de acordo com a demanda da cada mulher. Na troca, os médicos procuram usar o mesmo feito na colocação. O corpo da paciente, contudo, muda com o passar do tempo e cada caso deve ser avaliado individualmente, porque na hora da substituição pode ser necessária a retirada de pele eoutros cortes. "A maioria das pacientes é internada pela manhã e vai para casa no fim da tarde. Se a colocação foi feita pela axila e houver uma contratura da prótese, também não é recomendável retirar por essa via, mas a cicatrizes são discretas e não costumam comprometer o resultado", lembra.

Alternativa - Segundo Ivanoska, muitas mulheres chegam aos consultórios questionando sobre métodos alternativos, como o ácido hialurônico, um suposto substituto do material utilizado normalmente nas próteses. "Não o recomendo, porque a quantidade da substância necessária para dar um volume de mama é extremamente alta. Depois, não existem estudos comprovando que esse ácido não prejudica o tecido mamário. O silicone não é para vida toda, necessita de troca, mas o custo benefício é compensador. O gel é altamente coesivo e muito seguro", alerta. O pós-operatório é o mesmo da colocação. A paciente não pode dirigir por 15 dias, não deve levantar os braços e carregar peso.

A dentista Daniela Dias Britto, 31 anos, fez a troca das próteses há 10 dias. A primeira cirurgia foi feita há sete e a cápsula teve pequena contratura quatro anos depois. "Assim que começou a incomodar, marcamos a nova cirurgia. O corte foi feito no mesmo local e aproveitei para colocar uma prótese maior, de 400ml. Optei por um fabricante internacional, porque o perfil da cápsula é mais baixo e os seios ficam mais naturais. Estou ótima", revela. (Diario de Pernambuco, Brasil, 07/05/2010)


Estímulo de filhos a casais com HIV

São Paulo (EFE) - O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, anunciou ontem que está analisando a elaboração de um programa de natalidade para que os casais em que um dos membros seja portador do vírus da Aids possam ter filhos. "Há um comitê que está discutindo esta questão e o ministério espera suas conclusões. Queremos que todas as mulheres brasileiras que desejem ter filhos os tenham em condições seguras para elas e seus bebês", disse Temporão.

O ministro acrescentou que, por enquanto, não se chegou a nenhuma conclusão sobre a maneira com a qual o programa será realizado, que se encontra em fase inicial e para o qual não foi fixado um prazo. "Tudo o que for feito nesta área será discutido de forma conjunta entre os especialistas, o governo e o movimento organizado (sociedade civil). Será discutido profundamente", disse. (Diario de Pernambuco, Brasil, 07/05/2010)


Espasmos, não tiques
A distonia, doença que provoca movimentos involuntários e muita dor, costuma ser confundida com trejeitos nervosos. Chega, porém, a causar aposentadoria por invalidez nos casos mais graves

por Márcia Neri

Movimentos bruscos e involuntários da cabeça e espasmos no pescoço, nas costas e em toda a lateral do corpo, acompanhados de muita dor, são algumas manifestações que surpreenderam e mudaram a vida da ex-promotora de vendas Maria Aparecida dos Santos, 38 anos. Um incômodo na coluna cervical foi o primeiro sinal da distonia, doença quase sempre confundida com tiques nervosos. Depois, uma sensação parecida com torcicolo comprometeu os músculos do pescoço e fez com que ela passasse a sentir a cabeça puxando para o lado e rodando para trás. Maria não conseguia controlar os próprios movimentos e muito menos entender o que estava se passando.

"A distonia é uma síndrome neurológica que desencadeia contraturas musculares descontroladas e repetitivas, posturas anormais e torções. É muito frustrante não ter o controle sobre os movimentos" Nilson Becker – neurologista

Até a distonia ser diagnosticada, ela peregrinou por clínicos, ortopedistas e neurologistas por mais de um ano e, como costuma ocorrer com esse tipo de paciente, foi refém de deboches e preconceitos. "Era uma pessoa ativa, tinha dois empregos e nunca ouvira falar desse mal. Não há casos desse problema na minha família. Fiquei desesperada.Alguns médicos sugeriam que eu estava simulando uma doença. Na rua, era vista com desconfiança", relata.

Maria está aposentada por invalidez devido à distonia generalizada. Ela depende do auxílio da filha de 19 anos para realizar tarefas simples, como tomar banho e sair de casa. A distonia é uma doença limitante, caracterizada por movimentos anormais e involuntários de contrações musculares e espasmos que ocorrem em diversas partes do corpo. O mal pode afetar pequenas regiões, como olhos, pescoço e mãos (as chamadas distonias focais), ou ser segmentado e comprometer mais de um membro - ou mesmo o corpo todo, como é o caso da ex-promotora de vendas. O neurologista Nasser Allan explica que a doença é lenta e gradativa. "Os pacientes podem apresentar espasmos, tremores ou posturas fixas. Algumas formas de distonia são hereditárias, mas não conseguimos saber exatamente qual a causa da maioria dos casos", lamenta.

A ciência sugere que os indivíduos que sofrem com a mazela têm uma disfunção nos núcleos da base, estruturas cerebrais responsáveis pelo refinamento dos movimentos. "Os músculos são ativados sem que haja necessidade dessa ativação. Identificamos o local onde ocorre o transtorno, mas precisamos descobrir o mecanismo que desencadeia tudo isso", explica Nasser.

A confusão entre a distonia e o tique faz com que a história dos pacientes fique ainda mais triste. Eles demoram a procurar ajuda e muitos médicos não conhecem a patologia. Alguns estudos mostram que, mesmo nos Estados Unidos, as vítimas dessa doença levam cerca de oito anos para ter um diagnóstico definitivo. "No Brasil, os pacientes são tachados de doentes mentais e nem todo profissional faz um diagnóstico diferencial adequado, pois os sintomas da distonia são parecidos com os de muitas doenças", acrescenta.

Neurologistas com especialidade em distúrbio dos movimentos são os médicos indicados para atender esses pacientes. "Em nosso país, não existem pesquisas que apontem a quantidade de doentes, mas, pela experiência em ambulatório, posso afirmar que nos adultos acima dos 35 anos o mal é mais frequente e que as mulheres são mais atingidas, principalmente em relação ao blefaroespasmo", destaca Nasser. Além das limitações físicas, a distonia afeta a autoestima, provocando ansiedade e depressão.

Isolamento social - O neurologista Nilson Becker, especialista do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná, observa que, em alguns casos, a mazela leva ao afastamento do trabalho e ao isolamento social. Segundo ele, por conta dos movimentos involuntários, os pacientes chamam atenção por onde passam. "A distonia é uma síndrome neurológica que desencadeia contraturas musculares descontroladas e repetitivas, posturas anormais e torções. É muito frustrante não ter o controle sobre os movimentos. O estresse é praticamente inevitável, o que acaba contribuindo para que espasmos e tremores se intensifiquem", explica o médico.

Como consequência dos sintomas, muitos portadores ficam impossibilitados de andar, dirigir e até trabalhar. O blefaroespasmo, por exemplo, pode levar à cegueira funcional e a chamada "cãibra do escrivão" muitas vezes incapacita quem depende da escrita ou da digitação. Terezinha Silene Rocha, 64 anos, também foi aposentada por invalidez devido à distonia. "A doença começou nos olhos, que piscavam sem parar, e mais tarde comprometeu o rosto. Sinto dor em todos os músculos da face e, antes de conseguir ter o diagnóstico exato do problema, um médico que desconhecia a patologia me ironizou, dizendo que eu deveria colocar um esparadrapo nos olhos para mantê-los abertos", desabafa. "Fiquei cinco anos nessa agonia. Me isolei completamente, porque não conseguia mais sequer abrir os olhos. Vivia machucada devido aos tombos e topadas que passaram a fazer parte da minha rotina."

Esperança de alívio

A distonia não tem cura. Segundo o neurologista Nilson Becker, a generalizada é mais comum em adultos jovens. "Não existem muitas pesquisas, mas estimamos que esse tipo de mazela acomete até 50 pessoas a cada 1 milhão de habitantes. Nos judeus, esse índice dobra. A distonia generalizada parece ser geneticamente determinada. A focal é mais frequente. Calculamos em torno de nove casos para cada 100 mil pessoas", alerta.

Os sintomas do mal são amenizados com a aplicação de toxina botulínica tipo A no músculo comprometido pela doença. A substância revolucionou o tratamento das distonias. "Ela ameniza as contrações, abranda as dores e ajuda a corrigir a postura, devolvendo a qualidade de vida aos pacientes. Quando aplicada adequadamente, apresenta resultados eficazes em mais de 90% dos casos de blefaroespasmo, distonia cervical e espasmo hemifacial", avalia o neurologista.

Relaxantes musculares e drogas que atuam nos neurotransmissores e no controle motor, além de ansiolíticos e antidepressivos, também auxiliam,dependendo do caso. Para pacientes mais graves, que não respondem ao tratamento oral e à toxina botulínica, a cirurgia pode ser a melhor alternativa. "Implantamos um marca-passo cerebral, que auxilia no controle dos movimentos involuntários", especifica o médico. (Diario de Pernambuco, Brasil, 07/05/2010)



40% da população do Brasil é alérgica
Doença pode sumir inesperadamente, assim como surgir

Por Marcela Alves

JOANA, de 21 anos, tem que conviver com alergia respiratória desde criança
Pode-se dizer que a modernidade propiciou ao ser humano uma vida mais cômoda. É necessário, entretanto, ficar atento aos prejuízos ao organismo dos seres vivos. A incidência dos principais tipos de alergias, problema ignorado por muitos, cresceu cerca de 18% nos últimos dez anos, segundo pesquisas. No Brasil, uma criança em cada quatro sofre com algum tipo de alergia. Ampliando esse número, cerca de 40% da população nacional passa pela mesma situação. Além disso, a doença é responsável por 400 mil internações hospitalares e 2.500 óbitos, por ano.

De acordo com o alergologista e ex-presidente da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (Asbai), qualquer pessoa pode ficar alérgica a qualquer coisa sem determinação de tempo. “É uma espécie de sensibilidade a uma proteína que não é reconhecida pelo organismo”, pontuou o médico. A sensibilidade à alergia depende, principalmente, da carga genética e da região.

O principal prejuízo causado pela alergia, a diminuição na qualidade de vida é o que repercute de forma negativa ao enfermo. “Algumas pessoas vivem permanentemente em crise, outras têm crises esporádicas. Em ambos os casos, a pessoa não dorme bem, fica cansada, não consegue respirar bem, precisa fazer uma dieta balanceada. A alergia traz uma péssima condição de vida”, explicou o médico.

Mudanças bruscas de clima e poeira em excesso são o ‘calcanhar de Aquiles’ para a estudante Joana Paula Fialho, de 21 anos. Alérgica de carteirinha, ela nem lembra quando desenvolveu a alergia respiratória com a qual é obrigada a conviver. “Antes, quando eu era menor, tinha muito mais crises. Hoje, a frequência delas é menor”, contou Paula, que chegou a fazer tratamento com imuniterapia específica, conhecida por vacina antialérgica, quando criança. “Por muito tempo não tive crises, mas hoje tenho que enfrentá-las novamente”, relatou.

Joana Paula não é a única vítima da alergia. Aliás, ninguém está imune. Assim como as alergias podem sumir inesperadamente, elas podem surgir da mesma forma. “O organismo de um pedreiro, por exemplo, pode ficar sensível ao cimento, assim como o de uma pessoa que come muito frutos do mar ou um de um mecânico a óleo e o de algumas mulheres a esmaltes”, colocou Walfrido. A prevenção se dá de acordo com cada caso clínico, assim como o tratamento.

“A alergia não tem cura porque é um estado genético, mas o controle dos sintomas permite que o paciente passe a ter uma cura clínica”, comentou o especialista, que orienta as pessoas a procurarem um alergologista para realizar um teste cutâneo, o principal exame detector de alergias, e fazer o tratamento de imuniterapia específica, quando o médico assim recomendar. (Folha de Pernambuco, Grande Recife, 07/05/2010)


Tabagismo - uma questão de saúde pública

Por Rogério Brandão*
O tabaco, planta originária das Américas, era desconhecido do mundo dito civilizado até o advento das grandes navegações, e só foi apresentado a Europa após o ano de 1498, levado por Rodrigo de Jerez. A folha do tabaco é bastante rica em uma substância psicoativa, a nicotina, que relaxa, acalma, possui leves propriedades analgésicas e engana a fome. Por estes efeitos prazerosos, o tabaco rapidamente de difundiu na Europa, e em pouco mais de 40 anos já havia relato de seu uso no continente Asiático e Africano. Do ponte de vista comercial, um verdadeiro sucesso!

No século seguinte, em 1612, inicia-se a plantação do Tabaco em larga escala nas terras da Virgínia, e alavanca toda a economia deste estado norte-americano. Logo os governos se aperceberam que produtos não essenciais como o açúcar, o álcool e o tabaco, eram excelentes fontes de receitas financeiras por impostos. O consumo do tabaco tende sempre a ser ascendente, pois como toda droga, rapidamente o organismo desenvolve tolerância à dose inicial, necessitando cada vez mais dose para manter o mesmo nível de prazer. O consumo do tabaco, durante um bom período de tempo, foi mesmo estimulado pelos governos, pelas receitas que geravam. Do ponte de vista farmacológico, a nicotina é uma droga psicoativa, estimulante do sistema nervoso central, com propriedades semelhantes às anfetaminas e a cocaína. É a nicotina quem produz a dependência física e psicológica, que aprisiona os dependentes. Nos anos 1950, com o vertiginoso aumento do contingente dos fumantes, particularmente após a invenção do cigarro, a medicina começa a associar o tabagismo com várias doenças, como as respiratórias, o enfarte no miocárdio, os acidentes vasculares cerebrais, o câncer, hipertensão arterial, impotência sexual e uma infinidade de outras doenças de alta morbidade e mortalidade ao ponto de hoje, o tabagismo ser considerado a principal causa de morte previsível do mundo.

No Brasil, estima-se que mais de duzentas mil pessoas morram anualmente por doenças tabaco relacionadas. Cerca de 30% da mortalidade por câncer poderia ser evitada, apenas se deixando de fumar. As doenças acontecem porque, na fumaça dos cigarros, se encontra um gás bastante tóxico, o monóxido de carbono, e mais de 4500 substâncias químicas nocivas à saúde, entre os quais os benzopirenos e n-nitrosoaminas, firmemente correlacionadas com a desenvolvimento e promoção dos cânceres.

O fumante passivo também é exposto às doenças, já que a fumaça do cigarro, especialmente a oriunda da ponta do cigarro, tem cerca de três vezes mais monóxido de carbono, três vezes mais nicotina e 50 vezes mais substâncias cancerígenas. Deixar de fumar sempre é importante e vantajoso para os pacientes, independente do tempo que fumam. Vinte minutos após se apagar o último cigarro já se observam melhoras: a pressão se normaliza, o pulso, a frequência cardíaca, a temperatura dos pés e das mãos se reduzem. Um simples exame de monoximetria realizado oito horas após o último cigarro já mostra redução acentuada deste veneno no sangue. Vinte e quatro horas depois já aparece redução no risco de ataque cardíaco. Com 48 horas de abstinência, o olfato e o paladar estão consideravelmente melhores. No primeiro mês sem cigarros, a melhora circulatória e capacidade pulmonar já são evidentes. Começam então a diminuir a congestão pulmonar, a tosse e há melhora da respiração. Com o tempo, vão reduzindo os riscos de doenças graves como o câncer, o enfarte e os acidentes vasculares. O tabagista vive em média oito a dez anos menos que o não fumante. Para se deixar de fumar é preciso estar motivado. Se o tabagista não consegue deixar de fumar sozinho, deve se reconhecer dependente e procurar auxílio médico. Hoje, o tabagismo é considerado uma doença, já descrita no código internacional de doenças. Alguns serviços públicos e privados já oferecem esta modalidade de tratamento. Se você, amigo, ainda fuma, um conselho: deixe de fumar. Se mesmo assim deseja fumar, jamais acenda seu cigarro em ambientes fechados.*Médico cancerologista clínico - CRM 5758 (Folha de Pernambuco, Artigo, 07/05/2010)
 
 
 
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