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Efeitos da Aids
Com quase 250 sessões em uma semana de anúncios, debates e intensa troca de informações, e a participação de uma centena de organizações não-governamentais, 850 especialistas e 16 mil delegados de 185 países, encerrou-se, no último dia 23, em Viena, na Áustria, a 18ª Conferência Internacional de Aids, que é realizada a cada dois anos. A próxima, em 2012, será em Washington (EUA).
As principais questões levantadas disseram respeito aos direitos humanos dos infectados, à universalização do tratamento e às políticas de prevenção, sobretudo nas regiões em que se verifica o maior crescimento de incidência do vírus HIV, o Leste Europeu e a Ásia Central. A Organização das Nações Unidas (ONU) aproveitou o evento para anunciar a criação de uma comissão que terá a tarefa de repensar a comunicação das campanhas preventivas. Entre os integrantes, estão o publicitário brasileiro Nizan Guanaes, o prêmio Nobel da Paz, Desmond Tutu, o jogador de basquete Magic Johnson, os presidentes da França, Jacques Chirac, e do Chile, Michelle Bachelet. No estágio em que se encontra, a guerra contra a AIDS precisa levar em conta os efeitos culturais, econômicos e sociais de uma doença que se aproveita de tabus, preconceitos e ambientes degradados - como a África, onde ainda é devastadora.
O teor da Declaração de Viena, documento oficial do encontro, alerta para o equívoco da repressão sobre usuários de drogas. A ausência de políticas adequadas nas prisões foi apontada pelas Nações Unidas como outro grave problema, que faz com que as penitenciárias sejam incubadoras da doença em todos os países. Os ex-detentos que voltam ao convívio social terminam carregando comportamentos arriscados para o lado de fora. Além disso, os viciados em drogas infectados tendem a se esconder, espalhando a doença. Os portadores de HIV contaminados por drogas injetáveis somam quase um terço do total, fora do continente africano.
A queda da receita do Fundo Mundial Contra a Aids, pela menor contribuição dos países ricos, foi outra preocupação compartilhada no evento. A alegação é de que 20 bilhões de dólares serão necessários somente nos próximos três anos. E a conta pode ser ainda maior. De acordo com a Aliança Internacional HIV/Aids o custo de combate à epidemia pode chegar a US$ 35 bilhões em 2030, caso não forem aplicados recursos suficientes. Um dos palestrantes, Bill Gates, pediu eficiência nos gastos, com a redução dos custos para atender mais gente.
Os investimentos com prevenção e tratamento são altos, inclusive no Brasil, onde o governo elevou em R$ 90 milhões, em 2010, o orçamento da União para a aids e as doenças sexualmente transmissíveis (DST), chegando a R$ 1,1 bilhão, despesas que vão da compra de preservativos até a distribuição de remédios. Desde 1996, os brasileiros contam com o acesso universal aos medicamentos. De lá para cá, a conquista de maior tempo de sobrevida trouxe a necessidade de se oferecer maior qualidade de vida aos nossos soropositivos.
Apesar dos avanços nas pesquisas, como a utilização de um gel vaginal com teor de 1% de antirretroviral, divulgada na conferência, a doença ainda assusta. Para conter a pandemia, alguns cientistas sugerem uma abordagem mais agressiva do que a atual. No começo do ano, no Congresso anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), o pesquisador Brian Williams, da África do Sul - país que lidera o número de casos no planeta, com 5 milhões de infectados - divulgou os resultados de um estudo sugerindo o uso maciço de antirretrovirais na população contaminada. Com a diminuição da concentração do vírus no sangue, os doentes se tornam até 20 vezes menos contagiosos. Se isto fosse feito, segundo o cientista, seria possível cortar a mortalidade em 95% dos casos até 2015 e eliminá-la por volta de 2050.
Estima-se que a moléstia, responsável pela morte de pelo menos 25 milhões de pessoas nos últimos 30 anos, e com uma taxa de mortalidade de atualmente 2 milhões por ano, atinja 33 milhões de pessoas no planeta, fazendo, por dia, 7,4 mil novos infectados. Como ficou evidente na Conferência, não é hora de baixar a guarda: a guerra contra a aids continua. (Jornal do Commercio, Editorial, 02/08/2010)
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