Distribuído semanalmente Recife, 03 de setembro de 2010
 
Índice das Notícias

Falta higiene em hospitais
Laboratório eleva controle de pragas
Brasil tem 25 milhões de fumantes
Dentes doados
Cientistas criam células hepáticas em laboratório
O mundo agradece
Convenção discute saúde e gestão
Companhia assustadora
Anvisa proíbe menção a qualidades terapêuticas
Futuro comprometido
Remédio pode despertar vírus "adormecido"


Falta higiene em hospitais
Medicina // Levantamento mostra que 60% dos médicos não lavam as mãos antes e depois de terem contato com pacientes, causando riscos à saúde

por Luciane Evans

Passados quase 200 anos desde que, em 1846, o médico húngaro Ignaz Phillip Semmelweis constatou que a simples prática de lavar as mãos era a melhor forma de prevenir a contaminação por bactérias, um grande número de médicos, que têm a obrigação de evitar a proliferação de doenças, não lava as mãos, pondo em risco a saúde dos pacientes. Pelo menos é isso que comprova levantamento feito este ano pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em cinco hospitais de grande porte do país. Os resultados são assustadores. A Anvisa constatou que 60% dos profissionais de saúde não higienizam as mãos antes e depois de terem contato com os pacientes.

Boa lavagem com água e sabão dura 1,5 minuto e com álcool, 15 segundos Foto: Rafaela Tabosa/ON/D.A Press - 9/10/09
A situação é tão grave que a Anvisa vai exigir que hospitais, clínicas e demais estabelecimentos de saúde disponibilizem produtos de higiene (álcool) para médicos, dentistas, enfermeiros, auxiliares e técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, entre outros. O produto poderá ser oferecido em forma de gel, líquido ou espuma, mas seu fornecimento será obrigatório. O prazo para a discussão da proposta, por meio de consulta pública, se encerra hoje. Depois disso, os estabelecimentos de saúde terão até 180 dias para se adequarem. "Vamos consolidar as sugestões que recebemos de todo o país. Depois de publicada a norma, ela passará a ser obrigatória", explica Janaína Sallas, chefe da Unidade de Investigação e Prevenção das Infecções da Anvisa. Segundo Sallas, o procedimento é uma medida básica que evita a disseminação da infecção hospitalar.

A especialista destaca que, muitas vezes, a baixa adesão dos profissionais ao hábito de lavar as mãos está relacionada com a grande carga de trabalho. "A Anvisa não está pedindo que a água e o sabão sejam substituídos. Uma lavagem de mãos com sabonete benfeita dura, em média, um minuto e meio. Com o álcool, o tempo passa para 15 segundos", informa. A proposta é que o produto seja posto nos pontos de assistência e tratamento, salas de triagem e de pronto atendimento, e unidades de urgência e emergência. O álcool deve estar em ambulatórios, clínicas e consultórios, serviços de atendimento móvel e nos locais em que são realizados procedimentos invasivos. Os dispensadores deverão ficar em lugar visível e de fácil acesso, à beira do leito do paciente, de forma que os profissionais de saúde não precisem deixar o local para fazer a higienização. (Diario de Pernambuco, Brasil, 30/08/2010)


Laboratório eleva controle de pragas

Indústria química espera monitorar resistência de fungos, insetos e plantas

Por Rochelli Dantas

OBJETIVO é acelerar performance de produtos para, em seguida, disponibilizá-los para comércio no País
CAMPINAS (SP) - A Basf, indústria química com atuação mundial, inaugurou, na última quarta-feira, o Laboratório de Monitoramento de Re¬sistência e Testes com Pragas Urbanas. No local, a Basf espera monitorar possíveis resistências de fungos, insetos e plantas daninhas a dife¬rentes famílias de produtos químicos. No novo laboratório também serão rea¬lizadas análises por câmera para monitorar e simular o desenvolvimento de culturas e alvos biológicos, artificialmente e à distância, em dife-rentes condições de tempe¬raturas, umidade e luminosidade.

"Nosso objetivo é verificar e acelerar a performance dos produtos de controle de pragas para disponibilizá-lo no Brasil", afirmou o vice-presidente da Unidade de Proteção de Cultivos da Basf para a América Latina, Eduar¬do Leduc. O novo centro de pesquisa está instalado na Estação Experimental Agrí¬cola da empresa, em Santo An¬tônio das Posses, em Cam¬¬pinas, interior de São Paulo. No laboratório, já estão sendo realizados mo-nitoramentos do fungo de ferrugem asiática da soja e da planta daninha do arroz vermelho, prejudicial às lavou¬ras.

Segundo Leduc, para o Nordeste, o novo centro será eficaz no desenvolvimento de produtos que combatam pragas nas plantações de milho, soja, frutas e cana-de-açúcar. "A exportação de frutas na Região é muito forte. Então, nós temos desenvolvido produtos para que não haja prejuízos nas plantações e a exportação seja de alta qualidade", disse.

No Brasil, a Basf possui aproximadamente 3,5 mil colaboradores. Em 2009, as vendas da empresa foram de aproximadamente 1,4 bi¬lhão de euros. Deste total, cerca de 25% é destinado ao desenvolvimento de solu¬ções agrícolas. A previsão é de que, este ano, o mesmo montante seja investido na área.

A inauguração do novo laboratório coincide com a comemoração dos 30 anos da Estação Experimental da Basf, que ocupa uma área de 36 hectares e é a única do gênero comandada pela indústria no Hemisfério Sul. Na estação, são testadas as atividades biológicas dos defensivos contra as plantas da¬ninhas, doenças e pragas que atacam os cultivos, bem como a influência do clima, tipo de solo e diferentes tecnologias de aplicação. As pesquisas correspondem às primeiras fases do desenvolvimento dos produtos fitossanitários, antes que che¬guem ao mercado.

Na estação, são realizadas pesquisas de produtos para o cultivo de café, algodão, amendoim, arroz, cevada, feijão, girassol, milho, soja, trigo, abóbora, alho, batata, beterraba, cebola, cenoura, couve, melão, morango, pimentão, pepino, quiabo, repolho, tomate, crisântemo, rosa, citros (laranja e limão), manga, nectarina, pêssego, uva e maçã. (Folha de Pernambuco, Economia, 30/08/2010)


Brasil tem 25 milhões de fumantes
Pesquisa // Estudo divulgado ontem pelo Inca mostra que percentual de fumantes caiu de 34,8% da população, em 1989, para 17,5%, em 2008.

Rio de Janeiro - A Pesquisa Especial de Tabagismo (PETab), divulgada ontem pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), no Rio de Janeiro, mostrou que ainda existem no Brasil cerca de 25 milhões de fumantes com idade igual ou superior a 15 anos, o que equivale a 17,5% da população. Apesar do número elevado, o estudo revela uma queda significativa entre os usuários de tabaco em relação às últimas décadas. "Houve uma redução de 34,8% (em 1989) para 17,5%. Isso não é frequente. O Brasil é um exemplo para o mundo", afirmou Alfonso Tenorio-Gnecco, gerente de prevenção e controle de doenças e desenvolvimento sustentável da Organização Pan-Americana da Saúde, que acompanhou a divulgação dos dados.

Levantamento revela que 10,4% dos fumantes têm entre 15 e 24 anos. Entre eles, 21,5% têm dependência severa do tabaco Foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press
De acordo com a pesquisa, 45,6% dos fumantes tentaram parar de fumar nos últimos 12 meses. Segundo o Inca, esse é o resultado de medidas como a proibição de fumar em espaços coletivos, o aumento dos impostos sobre o cigarro, como medida para inibir o consumo, e os tratamentos oferecidos na rede pública de saúde para quem querdeixar de fumar.

O levantamento mostrou que a geração de brasileiros nascida a partir da década de 1980 começa a fumar, em média, a partir dos 17 anos, e que, na maior parte das vezes, as mulheres começam a fumar antes dos homens. Os percentuais de fumantes foram maiores entre os homens (21,6%), entre as pessoas de 45 a 64 anos (22,7%), entre os moradores da região Sul (19%), entre os que vivem na área rural (20,4%) e entre os de menor renda (23,1%).

Liz Maria de Almeida, gerente da divisão de epidemiologia do Inca, revela que uma das maiores preocupações entre os especialistas é o envolvimento dos jovens. O levantamento mostrou que 10,4% dos fumantes têm entre 15 e 24 anos. Entre eles, 21,5% têm dependência severa do tabaco. "O jovem é o alvo principal da indústria do tabaco. Se consegue tornar o jovem dependente desde cedo, ela garante o comprador até o fim da vida", lamenta.

Custo - A pesquisa também mostrou que o tabaco faz muito mal para o bolso. Em um ano, um casal de fumantes gasta pouco mais de trêssalários mínimos com cigarros, valor equivalente a uma geladeira duplex ou uma TV de última geração. "Um casal de fumantes, com idade entre 45 e 64 anos, gasta R$ 1.543 ao ano com cigarro. Nesse mesmo ano, eles poderiam ter comprado uma geladeira, um computador, ter feito uma viagem. Há uma série de coisas mais interessantes para fazer do que fumar", afirmou Liz de Almeida.

Em 2008, quando o salário mínimo estava em R$ 415, a média anual de consumo de cigarro por duas pessoas, em qualquer região do país, era de R$ 1.495,20 (3,6 salários mínimos). Os pesquisadores compararam o preço médio do cigarro e o salário mínimo de setembro de 2008 - naquele momento, um fumante de baixa renda podia comprar 150 maços de cigarro, contra 83 maços, em 1996, e 112 maços em janeiro de 2003. Para reduzir esse poder de compra, os técnicos do INCA defendem o aumento da carga tributária sobre o cigarro.

Os dados que compõem a PETab foram coletados durante a Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar (Pnad), feita pelo IBGE em 2008. Foram ouvidas 51 mil pessoas em 851 países. O estudo faz parte do Global Adult Tobacco Survey (Gats), que reúne informação sobre o uso do tabaco em 14 países. O Brasil é a nona nação a divulgar seus dados. (Diario de Pernambuco, Brasil, 31/08/2010)


Dentes doados
PUC-MG cria Banco de Dentes Humanos, com o objetivo básico de ajudar na formação de profissionais de odontologia e possibilitar testes, como o de qualidade das resinas usadas no país. Projeto nacional também deve ser criado
por Laura Valente

Belo Horizonte - Poucas pessoas dão importância aos dentes extraídos, de leite ou permanentes, cujo destino mais comum é o lixo. Assim como o coração, o pulmão e os rins, porém, eles também são órgãos humanos, podem ser doados e consistem em material de estudo e pesquisa precioso para a ciência. É o que explica a professora Cláudia Penido, coordenadora do projeto que deu origem ao primeiro Banco de Dentes Humanos da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), instalado no câmpus Coração Eucarístico, em Belo Horizonte.

Órgãos humanos, os dentes estão submetidos à Lei de Transplantes brasileira e sua doação é simples, feita por meio de um formulário assinado pelo doador. Primeira utilização deve ser no aprendizado da anatomia dental Foto: Euler Junior/EM/D.A Press
Com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), o projeto do Departamento de Odontologia é vinculado ao Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS). O banco será totalmente implantado em dois anos, mas já está funcionado e recebendo doações. Em breve, avalia a professora, o que ainda é tratado como novidade será comum. "A importância da criação de bancos de dentes humanos vem sendo discutida pela Sociedade Brasileira de Pesquisa Odontológica (SBPqO) e por outras entidades há alguns anos. Um banco nacional deverá ser criado", antecipa. Cláudia cita ainda a necessidade de regulamentar as doações e assim criar uma fonte permanente e sistematizada de dados importantes para a prática de testes e pesquisas. O manuseio dos dentes, a preocupação com a biossegurança, a organização e a divisão por grupos também estão no foco do projeto.

Como órgãos humanos, os dentes estão submetidos à Lei de Transplantes brasileira. Daí a importância de regulamentar a doação, o que pode ser feito de forma simples, por meio de um formulário assinado pelo doador. "Em pouco tempo, todos os dentes usados para pesquisa serão cadastrados e catalogados por exigência dos comitês de ética. Para tanto, já existem formulários e termos de consentimento próprios. O objetivo é difundir a ideia, promover a troca de experiências e, ainda, o auxílio na implantação de outros bancos." Vale informar que todos os tipos de dentes interessamaos pesquisadores: provisórios e permanentes, cariados, restaurados e outros, de adultos e de crianças. Os pequenos, aliás, são doadores em potencial dos 20 dentes de leite que caem na troca da dentição provisória para a permanente. Nesse caso, o termo de consentimento é assinado pelos pais ou responsáveis.

Utilidade - Os dentes doados são aproveitados em atividades acadêmicas e de pesquisa. Na graduação, exemplos são o estudo da anatomia dental e o aprendizado de técnicas para o tratamento de canal. O dente também é fundamental para a realização de testes laboratoriais. Um dos mais comuns avalia a qualidade das resinas para restauração disponíveis no mercado. Cláudia explica que os dentes não serão usados em implantes, pelo menos por enquanto, mas reforça a importância de a população colaborar. "Precisamos de dentes para formar bons dentistas. O reflexo dessas pesquisas está diretamente relacionado à qualidade da saúde bucal."

O banco será importante por poder, no futuro, ceder dentes doados para uso clínico como colagens de fragmentos e outros fins já demonstrados por pesquisas científicas; proporcionar a professores e alunos a possibilidade de desenvolvimento de trabalhos científicos; evitar que docentes e estudantes de odontologia contribuam, mesmo que involuntariamente, com o comércio dos órgãos dentários.

Com a intenção de informar e sensibilizar a comunidade, o trabalho da PUC-MG vem sendo divulgado desde novembro do ano passado nos postos de saúde conveniados à universidade e em atividades de prevenção. As doações podem ser feitas pessoalmente em todos os câmpus da PUC mineira ou mesmo enviadas pelos correios. Os dentes a serem doados poderão ser levados secos ou imersos em água de torneira ou água deslitada. Não use álcool, água oxigenada, soluções fluoretadas, soluções para enxaguamento bucal etc. O formulário sobre o projeto está disponível no site bancodedentes@pucminas.br. O telefone para informações é (31) 3319-4414 (Diario de Pernambuco, Brasil, 31/08/2010)


Cientistas criam células hepáticas em laboratório

do Correio Braziliense

Brasília - Ao criar células hepáticas doentes a partir de uma pequena amostra do tecido da pele humana, cientistas conseguiram mostrar, pela primeira vez, que as células-tronco podem ser usadas como modelo para diversos tipos de distúrbios hereditários. Os pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, acreditam que a descoberta poderá levar a novos tratamentos para quem sofre de males do fígado. O estudo foi publicado no Jornal de Investigações Clínicas.

Como as células hepáticas não podem ser cultivadas em laboratório, pesquisar doenças do fígado é extremamente difícil. Daí a importância de os cientistas - financiados pelo instituto Wellcome Trust e pelo Conselho de Pesquisas Médicas - terem conseguido criar essas estruturas a partir da pele de pacientes que sofrem de diversos males hepáticos.

Além de conseguir entender exatamente o que acontece com as células doentes, eles poderão testar a efetividade de novas terapias para tratar condições que afetam o órgão. A esperança é que a descoberta leve a tratamentos sob medida para os pacientes e, eventualmente, possa servir de base para o desenvolvimento de terapias celulares, quando as células do paciente com doenças genéticas são retiradas, curadas e transplantadas novamente.

O médico Ludovic Vallier, do Centro de Células-Tronco e Medicina Regenerativa da Universidade de Cambridge, principal autor da pesquisa, diz que o trabalho "representa um importante passo em direção às promessas clínicas das células-tronco". "Porém, mais pesquisas precisam ser feitas, e nosso grupo está comprometido com esse objetivo, aumentando o conhecimento necessário para o desenvolvimento de novas terapias", acrescenta.

Na pesquisa, a equipe de cientistas fez biópsias da pele de sete pacientes com diversos tipos de doenças hepáticas hereditárias e de três indivíduos saudáveis, que compuseram o grupo de controle. Então, eles reprogramaram as estruturas retiradas das amostras e as implantaram em células-tronco, usadas para gerar estruturas hepáticas doentes e saudáveis (no caso do grupo de controle).

Segundo Tamir Rashid, do Laboratório de Medicina Regenerativa da Universidade de Cambridge, um dos autores do texto, é necessário criar estratégias alternativas ao transplante de fígado doado por humanos. "Nosso estudo aumenta a possibilidade de essas alternativas serem descobertas, tanto usando novas drogas ou a partir de uma abordagem de terapias celulares", diz.

Alternativa - Convidado pela universidade para comentar o estudo, o especialista em doenças hepáticas e professor do Imperial College de Londres Mark Thursz mostrou-se animado. "O desenvolvimento de células hepáticas a partir das células-tronco é um avanço significativo na batalha contra as doenças do fígado. Essa tecnologia promete, a curto prazo, fornecer novas ferramentas para explorar a biologia das doenças do órgão e, a longo prazo, pode representar uma fonte em potencial de reposição de células para pacientes com falência hepática."

No Brasil, as doenças hepáticas são a segunda maior causa de morte entre homens de 35 a 59 anos, e a oitava entre as mulheres. Já no Reino Unido, doenças do fígado são a quinta maior causa de morte, depois de doenças cardiovasculares, câncer, ataques cardíacos e distúrbios respiratórios. Nos últimos 30 anos, a mortalidade provocada por males hepáticos em jovens e adultos de meia-idade aumentou mais de seis vezes no país, com um crescimento de óbitos de 10% a cada ano. É estimado que, em 2012, os ingleses registrem as maiores taxas de mortalidade decorrentes de doenças do fígado na Europa e, sem ações para conter o avanço do mal, elas podem tomar o lugar dos enfartes e das doenças coronarianas como a principal causa mortis nos próximos 10 a 20 anos. (Diario de Pernambuco, Brasil, 31/08/2010)


O mundo agradece
Entenda como foi realizada a pesquisa brasileira que deixou uma vacina contra a esquistossomose a um passo de virar realidade. Cerca de 600 milhões de pessoas em todo o mundo vivem em áreas infestadas pelo verme causador da doença

por Márcia Neri

Brasília - Em 2009, o Distrito Federal notificou nove casos de esquistossomose ao Ministério da Saúde. Os doentes foram atendidos na capital do país, mas não contraíram o parasita que provoca a doença no DF. A contaminação ocorreu em regiões endêmicas do interior de Minas Gerais, da Bahia, de Alagoas e de outros estados que ainda sofrem com as mazelas decorrentes da falta de saneamento básico. A dona de casa Consuelo Lisboa, 73 anos, não sabe ao certo quando foi infectada pelo verme, o que a fez sair de Santa Maria da Vitória, extremo-oeste baiano, para buscar socorro em Brasília.

"Passei mal em 2007. Até sofrer uma forte hemorragia, a doença não apresentou sintomas. Não imaginava ter em meu organismo um verme desencadeando tantos estragos. Percebi os danos somente quando comecei a perder sangue pelas fezes e pela boca", relata. Ao diagnóstico da esquistossomose seguiu-se a constatação de que o baço estava inchado e o fígado atrofiado, consequências da ação do helminto. "Com os medicamentos, consegui me livrar do parasita, mas as sequelas da falta de tratamento ficaram em meu corpo", lamenta.

Um estudo realizado ao longo dos últimos 25 anos por uma pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz poderá colocar o Brasil em posição inédita na área científica. A primeira vacina contra a esquistossomose da história está a um passo de ser testada clinicamente no país. Ela representa, para as pessoas que vivem em áreas endêmicas como Consuelo Lisboa, o controle efetivo desse mal, que ainda faz vítimas em quase todo o planeta. Conhecida popularmente como barriga d'água, a doença é provocada pelo Schistossoma mansoni, verme cujo principal hospedeiro é o homem. Se tudo transcorrer como o desejado pelo grupo envolvido na pesquisa coordenada pela médica Miriam Tendler, em pouco tempo a população vulnerável ao parasita poderá ser imunizada.

A esquistossomose atinge 200 milhões de adultos e crianças em 74 países, causando a morte de pelo menos 200 mil pessoas por ano. Como médica, Miriam sabia dos grandes percalços provocados pela doença em nações africanas e no próprio Brasil, fato que a levou a pesquisar uma solução efetiva, capaz de reduzir esses números e melhorar a qualidade de vida dos cidadãos que vivem à margem do progresso. Era claro, para ela, que somente uma vacina protegeria os cidadãos expostos ao Schistossoma. "O passo fundamental para o desenvolvimento desse produto foi a descoberta da proteína Sm14, antígeno presente no próprio parasita. Ela é a base molecular da vacina, porque tem uma sequência de aminoácidos que se liga a lipídeos. Os vermes não conseguem sintetizá-los, embora necessitem da gordura do hospedeiro como fonte de energia", explica Miriam.

Ao longo do trabalho, a cientista descobriu também que a Sm14 era capaz de produzir anticorpos contra o parasita causador da fasciolose hepática - doença que atinge 300 milhões de cabeças de bovinos e ovinos no mundo. "Nos dois helmintos, a molécula adota a mesma estrutura tridimensional. Percebemos, então, que a vacina seria multivalente, fato que despertou interesse industrial e uma corrida, em outros países, para novas descobertas sobre a molécula", acrescenta.

Tendler iniciou os estudos para a vacina em meados de 1975, mas a fase molecular do projeto - o isolamento da Sm14 - ocorreu somente no início da década de 1990. Todas as nações desenvolvidas trabalhavam com biologia molecular. O Brasil, no entanto, nem contava com laboratórios nessa área. Miriam imaginou que seria o fim da linha para o trabalho. "Fui convidada, porém, para fazer um pós-doutorado nos Estados Unidos e lá consegui clonar a Sm14, proteína jamais isolada anteriormente, embora presente na maioria dos vermes", conta.

A partir daí, surgiram parcerias importantes. Entre elas, a do Instituto de Física da Universidade Federal de São Carlos, responsável pela modelagem molecular da proteína. "Ao longo do trabalho, fomos registrando as patentes. Nossa vacina será produzida com a técnica do DNA recombinante, que introduz no organismo apenas uma molécula, garantindo maior segurança, controle e produção em larga escala. Em meados de 2000, fizemos estudos que comprovaram a eficácia do antídoto em bovinos e ovinos", revela.

Impacto enorme - A esquistossomose é a segunda doença parasitária mais prevalente no mundo, perdendo apenas para a malária. O mal é remediado com antivermífugos, mas, como as pessoas tratadas continuam nas áreas infestadas, a reinfecção é recorrente. Atualmente, 600 milhões de indivíduos vivem em áreas contaminadas pelas larvas do verme. O continente africano abriga 80% deles. No Brasil, a contaminação, antes concentrada no Nordeste e no Centro-Oeste, está em expansão em outras regiões. A fascilose atinge o gado na Europa, nos Estados Unidos, na Nova Zelândia e nas américas do Sul e Central, gerando uma perda econômica de US$ 3 bilhões por ano, com impacto na indústria de alimentos. As drogas disponíveis não interrompem o ciclo de nenhum dos dois parasitas que desencadeiam as doenças.

Recentemente, a Ourofino Agronegócios, empresa de produtos veterinários com capital 100% nacional, adquiriu a licença para explorar a tecnologia desenvolvida na Fiocruz e fabricar as duas vacinas. A empresa se interessou primeiramente pela versão veterinária, que acabou impulsionando o projeto, porque na Europa já existe grande resistência em relação ao gado que toma muitos medicamentos para se defender dos parasitas. "De nada adianta tantos anos de esforço se as pesquisas permanecerem dentro do laboratório. Para chegar à população alvo do parasita, precisamos de parceria industrial", defende Miriam.

Testes preliminares provaram uma eficácia entre 60% e 90% do antídoto desenvolvido no trabalho da médica. O médico veterinário e diretor de pesquisa, desenvolvimento e inovação da Ouro Fino, Carlos Henrique Henrique, explica que a empresa aguarda a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para testar a versão veterinária no campo. A vacina contra a esquistossomose ainda passará por testes clínicos. "Hoje, temos a tecnologia para produção das duas. O antídoto contra a fascilose será testado no pasto assim que recebermos o aval da agência. Acreditamos que dentro de dois anos ele estará no mercado. Estamos abertos a parcerias para finalizar o produto destinado a controlar a esquistossomose. Esperamos que, em cinco anos, a população possa ser beneficiada com a vacina contra a doença", adianta. (Diario de Pernambuco, Brasil, 01/09/2010)


HIV-2 é identificado em 15 pacientes no Brasil

SÃO PAULO – Estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) confirmou a presença de um segundo tipo de vírus da aids em 15 pacientes no Brasil, todos em situação de coinfecção com o vírus 1, que circula no País. Para o Ministério da Saúde, responsável pelas políticas contra a doença, o estudo tem impacto principalmente sobre as políticas de prevenção, reforçando a necessidade de uso da camisinha, por provar o risco de uma pessoa no País ser infectada duas vezes pelo HIV por meio de diferentes exposições ao vírus – por exemplo, múltiplos parceiros sexuais.

"Mesmo infectada, uma pessoa tem de usar camisinha", afirmou o diretor do Departamento de Doenças Sexualmente Transmissíveis, Aids e Hepatites Virais da pasta, Dirceu Grecco. Ele destaca que o HIV-2, detectado pela primeira vez no Senegal, em 1985, tem evolução mais lenta e é menos transmissível. Porém, é resistente a uma das classes de medicamentos contra a aids.

Segundo informações da fundação, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou, em 2008, que a epidemia por HIV-1 atingia 34 milhões de pessoas no mundo, enquanto o HIV-2 seria responsável pela infecção de 2 milhões. Desde 1987, pesquisadores discutem a presença do HIV-2 no País, mas a nova pesquisa usou meios mais precisos de confirmação e encontrou o maior número de casos. (Jornal do Commerio, Brasil, 02/09/2010)


Convenção discute saúde e gestão

Saúde, demografia e gestão empresarial serão alguns dos temas debatidos durante a XXII Convenção Regional Norte/Nordeste da Unimed, marcada para acontecer entre os dias 8 e 10 deste mês, em Suape, no Cabo de Santo Agostinho, Grande Recife. A expectativa é que mais de 450 dirigentes da Unimed das Regiões Norte e Nordeste participem. Paralelamente, será realizado o XV Simpósio de Cooperativismo de Crédito e o XIX Encontro da Mulher Unimediana. Na abertura dos três eventos haverá a apresentação da Orquestra Criança Cidadã dos Meninos do Coque, no dia 8, a partir das 20h, no Vila Galé Eco Resort do Cabo. "Apoiamos a orquestra. Todas as crianças são assistidas pela Unimed", explica a presidente da Unimed Recife, a médica Maria de Lourdes Correia de Araújo. O uso da tecnologia para melhorar a saúde da população será um dos assuntos em destaque na convenção. No encontro voltado para as mulheres, estão programadas palestras sobre cirurgia plástica e qualidade de vida. Atualmente, a Unimed Pernambuco tem cerca de 254 mil associados. (Jornal do Commercio, Cidades, 02/09/2010)


Companhia assustadora
O diabetes pode ser controlado com eficácia, mas gera chances de incômodos e duríssimos males secundários, como problemas cardíacos e cerebrovasculares. Acompanhamento periódico atento é o melhor caminho para evitar complicações, dizem especialistas
por Silvia Pacheco

Brasília - O diabetes é uma doença que não escolhe sexo ou idade para se manifestar. Silenciosa, pode provocar problemas cardiovasculares e circulatórios - cujos sinais podem passar despercebidos. De uma repentina dor no peito a um cansaço inexplicável ao subir um lance de escada, passando por excesso de suor, há manifestações que podem indicar que algo não vai bem. Essas complicações ocorrem quando os grandes vasos são afetados, levando à obstrução de órgãos vitais, como o coração e o cérebro. O grande vilão disso tudo é bem conhecido do diabético: o açúcar. Seu excesso no sangue - a hiperglicemia -, somado à pressão alta, ao aumento do colesterol, à falta de atividade física e ao tabagismo, é um sério fator de risco para o desenvolvimento de doenças cardio e cerebrovasculares. O bom controle desses companheiros perturbadores são medidas imprescindíveis para se prevenir complicações.

O diabético tem de duas a quatro vezes mais chances de ter problemas cardiovasculares. "Esses pacientes são mais propensos a desenvolverem um processo inflamatório das artérias, a proliferação de gordura e o acúmulo dessas substâncias nos vasos", avalia Edna Maria Marques de Oliveira, cardiologista do Instituto do Coração de Taguatinga (Incor). A principal doença cardiovascular responsável pela maior causa de mortes relacionadas ao diabetes - não importando o tipo - é o infarto. Ele é caracterizado pela obstrução das artérias do coração por substâncias como a gordura. Com o tempo, essas placas podem se romper, formando coágulos de sangue que levam à obstrução, caracterizando o infarto do miocárdio.

Muitas pessoas com um quadro de infarto apresentam os mesmos sintomas, como forte dor no peito e arritmias. Edna alerta, porém, que o diabético tem a percepção e a sensibilidade diminuídas. "Às vezes, esse paciente se machuca na perna ou no pé e pode não notar o ferimento. O mesmo ocorre quando ele desenvolve um problema cardiovascular." Podem, no entanto, aparecer manifestações atípicas: casos com total ausência de dor ou o surgimento de dores em locais fora do tórax, como a parte superior do abdômen, os ombros, o dorso e o pescoço. "Nesses casos, é mais difícil diagnosticar o problema", afirma o cardiologista Fábio Mello. Por isso, os médicos recomendam que os diabéticos recebam uma avaliação anual para o risco de doenças no coração. "Além do exame clínico com o médico, é indicada a realização dos exames rotineiros de fatores de risco, como o colesterol, a taxa de triglicérides e a pressão arterial", esclarece Mello.

Informação prévia - Há 11 anos, o funcionário público Altivino Geraldo, 54 anos, descobriu o diabetes. Dois anos atrás, precisou colocar três pontes de safena no coração. Sua história se mistura à de outros pacientes que não sentiram quase nada dos sintomas mais comuns que sinalizam um infarto. "Antes da cirurgia, passei um ano sentindo arritmias, mas não era nada constante. Mesmo assim, resolvi procurar um cardiologista. Ele acabou descobrindo que três veias importantes do meucoração estavam entupidas", conta Geraldo. O funcionário público não chegou a ter um infarto, mas passou bem perto. Ele deve o fato de ter buscado um cardiologista à sua informação sobre o diabetes. "Já sabia que poderia ter doença no coração. A cada dia, aprendo mais sobre a minha condição e, dessa forma, acabo controlando bem o diabetes, evitando complicações", salienta Geraldo.

De acordo com Edna, pacientes que sofreram infarto tem sempre um grau de sequela, pois essas doenças são progressivas. "Do mesmo jeito que houve uma obstrução de uma artéria, se não tiver cuidado, outras podem ser obstruídas e provocar mais uma complicação. Por isso, esse indivíduo deve ir ao cardiologista de três em três meses", defende. "Nosso objetivo é não deixar essa doença evoluir. Porque, nesse caso, já não tem mais cura, apenas o controle."

Nem só para o coração, porém, o diabetes pode ser um fator de risco. O cérebro também pode sofrer com as consequências. Isso ocorre porque os níveis de gordura nas paredes das artérias podem ficar tão elevados ao ponto de provocar o estreitamento da passagem do sangue, acarretando o entupimento completo. Se for de uma artéria que irriga o cérebro, ocorrerá um derrame ou um acidente vascular cerebral (AVC). "Esse acúmulo pode causar a formação de coágulos, que, se levados pela corrente sanguínea, acabam entupindo uma artéria distal de menor diâmetro", diz Mello.

Prevenção - As extremidades do corpo também podem sofrer com a falta de circulação. Se a obstrução acometer uma das artérias da perna e não for tratada a tempo, pode ocorrer dor durante a caminhada, sensação de frio nas extremidades e, às vezes, até uma amputação por gangrena. Para evitar esses problemas, o exame clínico é sempre fundamental. O médico pode detectar a redução da pulsação das artérias e sentir a temperatura local. No entanto, alguns sintomas são sugestivos desses problemas, tais como dor nas pernas após atividade física (como caminhada), extremidades dos pés frias, episódios de tonturas etc.

Além do excesso de gordura nas paredes dos vasos, o músculo do coração se torna incapaz de bombear adequadamente o sangue para as extremidades do corpo. É isso que torna a atividade física tão importante. "O fortalecimento da musculatura dos membros inferiores favorece o retorno venoso. Assim, o sangue consegue voltar à bomba cardíaca", informa Jane Dullius, educadora física da Universidade de Brasília (UnB) e coordenadora do projeto Doce Desafio, com sede no Centro Olímpico da universidade. Jane defende um rigoroso controle da dieta, da pressão arterial e do colesterol, aliado a atividade física direcionada ao diabético. "Caminhar é parte, mas não é o suficiente", afirma. Para tanto, é necessário um programa de exercícios que contemple, pelo menos, dois aspectos: o aeróbico, para fortalecer a parte cardiovascular respiratória, e os exercícios resistidos (musculação), que tornam mais forte a musculatura.

No ano passado, a aposentada Liduína Maria Braga Mendes, 62 anos, passou por um susto, após receber a notícia de seu cardiologista de que 80% de uma das veias do coração estava obstruída. "Sentia cansaço sem motivo e dor no peito. Achei que fosse problema respiratório", conta. Mesmo com a pressão e o colesterol controlados, a aposentada resolveu procurar um cardiologista. "Quinze dia depois da consulta, passei por uma cirurgia para colocar um stent (espécie de mola, de 2mm de diâmetro, colocada na veia para alargar e evitar acúmulo de gordura)." Hoje, os sintomas sumiram e Liduína se diz satisfeita com sua qualidade de vida. "Graças ao meu programa de atividades físicas, aliado a uma dieta balanceada", avalia. ( Diario de Pernambuco,Brasil, 02/09/2010)


Anvisa proíbe menção a qualidades terapêuticas

RIO – Depois de ter atingido a marca de mais de 100 mil unidades vendidas em dois anos, as chamadas pulseiras quânticas, que prometem melhorar o equilíbrio e trazer outros benefícios ao usuário, terão restrições a sua propaganda. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publica hoje notificação às empresas e sites que vendem o produto proibindo qualquer menção às supostas qualidades terapêuticas.

Segundo a agência, por não ser um produto registrado o acessório não pode ser vendido com a proposta de melhorar a saúde nem o funcionamento do corpo. No entanto, uma rápida pesquisa na internet leva a páginas que prometem efeitos como "maior estabilidade, facilidade de circulação e alívio da dor".

No site da empresa que trouxe o produto para o Brasil, a frase de saudação é: "Tecnologia que mantém você equilibrado e saudável". Apesar disso, a assessoria de imprensa da Power Balance afirma que o departamento jurídico entrou em contato com a Anvisa e se certificou de que a empresa não está infringindo a lei. A agência nega o contato.

De acordo com a Anvisa, o desrespeito à proibição pode levar à cobrança de multa que varia de R$ 2 mil até R$ 1,5 milhão. Com um custo que pode variar de R$ 159 a R$ 1,2 mil, a pulseira leva em seu centro um holograma eletromagnético. Ela também é vendida em forma de pingente. (Jornal do Commercio, Brasil, 03/09/2010)


Futuro comprometido
Pesquisa norte-americana comprova cientificamente o que muitos já sentem na pele: uma infância marcada por fatores como pobreza, má alimentação, desestruturação familiar e violência doméstica cobra um sério preço na saúde dos adultos

do Correio Braziliense

Brasília - Uma rua estreita, com o asfalto ainda novo, leva à construção simples, parte de alvenaria, parte de madeira, onde as duas crianças brincam com os primos e vizinhos. Na casa, com o quintal de terra batida, cravada no meio da Estrutural (DF) - cidade que cresceu espremida entre um lixão e a rodovia que lhe dá o nome -, mora Maicon Carvalho de Almeida, 26 anos, reciclador e pai dos dois pequenos que se distraem na porta de casa, Maicon Douglas, 8 anos, e Carolaine Jamile, 6. As crianças dividem o tempo entre a diversão e os estudos, na escola perto de casa. Enquanto isso, não muito longe dali, o pai tenta retirar do lixo o sustento da família.

Maicon, 26 anos, com Maicon Douglas, 8, e Carolaine Jamile, 6: trabalhando com reciclagem de lixo, ele faz de tudo para que os filhos possam só brincar Foto: Fotos: Carlos Moura/CB/D.A Press
Mesmo com menos de 30 anos, a saúde de Maicon Carvalho já não é das melhores, culpa da alimentação ruim que teve na infância e do trabalho precoce. Desde os 8 anos, o reciclador já trabalhava como gente grande. Hoje, luta para que os filhos não sigam o mesmo caminho e tenham sua saúde prejudicada desde cedo. A milhares de quilômetros deuma das cidades mais pobres do Distrito Federal, pesquisadores da Universidade de Pittsbugh, nos Estados Unidos (EUA), comprovaram o que o pai brasiliense aprendeu na prática: situações de vulnerabilidade, como fome e trabalho infantil, deixam marcas na saúde das crianças que permanecem durante a vida toda.

Segundo o estudo norte-americano, crianças que não têm condições mínimas para crescer e se desenvolver plenamente, especialmente nos primeiros anos de vida, têm chances muito maiores de desenvolver no futuro problemas cardíacos, envelhecimento precoce e inflamações. "As razões são muitas e vão desde a exposição a toxinas e uma dieta mais pobre de nutrientes até aspectos ambientais, como menos oportunidade de se exercitarem fisicamente por morarem em bairros inseguros", conta Karen Matthews, uma das responsáveis pelo estudo, em entrevista ao Correio Braziliense/Diario de Pernambuco.

A pesquisa conduzida por Karen avaliou a saúde de 200 adolescentes. Os que vieram de lares mais pobres e foram mais expostosà violência doméstica ou à desestruturação familiar apresentaram artérias mais endurecidas, pressão cardíaca mais alta e tiveram mais momentos de raiva e hostilidade do que os que cresceram em condições mais próximas das ideais. "Isso acontece porque são crianças mais expostas ao estresse, já que suas vidas são imprevisíveis. Além disso, essas famílias têm menos recursos para tratar o estresse", explica a pesquisadora norte-americana.

Karen conta que essas crianças também têm uma postura diferente quando pensam na vida que levarão quando crescerem. "Elas são menos otimistas sobre seu futuro - o que, de certa forma, mostra um realismo diante da vida - e experimentam muito cedo emoções e situações negativas", conta a especialista. "Todos esses fatores contribuem para eles serem menos saudáveis na vida adulta", conclui.

Em nome dos filhos - Mesmo sem conhecer a pesquisa norte-americana, Maicon Carvalho tenta minimizar os riscos para a saúde de seus filhos. "Enquanto eu puder, farei de tudo para eles não teremque trabalhar e poderem estudar. A comida não chega a faltar, mas tenho que lutar muito pra isso", conta o reciclador. "Se quando eu era criança fosse assim, talvez hoje eu não tivesse alguns problemas de saúde", conta o pai, que reclama das dores constantes, principalmente na coluna.

Para a presidenta do departamento científico de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Virgínia Weffort, além do problema da falta de comida, toda a população, inclusive a mais pobre, também sofre com os efeitos da alimentação incorreta. "Muitas vezes, não se trata de quantidade, e sim de qualidade. Em todas as classes sociais existe o hábito de comer alimentos ricos em gordura e açúcares e pobres em vitaminas e nutrientes. O resultado é um atraso, por vezes irreversível, no desenvolvimento dessas crianças", conta a médica.

Os preços e a publicidade de alimentos pouco saudáveis acabam atraindo os pequenos. "Uma criança pobre, que ganha R$ 2 do pai para comprar um lanche, em geral vai utilizá-los para comprar umbiscoito e um refrigerante. Dificilmente ela vai comprar uma fruta, que, aliás, muitas vezes é até mais cara", exemplifica Virgínia. "Não bastasse o fato de se alimentarem pouco, elas se alimentam mal. Isso se reflete no baixo crescimento e desenvolvimento intelectual mais lento, mais riscos de ateriosclerose, diabetes e problemas cardíacos", enumera.

Além da falta de alimentação adequada, o abuso sexual, a violência doméstica e o trabalho infantil são algumas entre as tantas violações aos direitos das crianças que fragilizam a saúde dos pequenos - tanto no presente quanto no futuro. "Os primeiros três anos de vida são quando a criança se torna mais vulnerável, mas por toda a infância esse tipo de violação é altamente prejudicial", conta Mário Volpi, coordenador de relações institucionais do Fundo das Nações Unidas para a Infância e Adolescência (Unicef) no Brasil.

Nesses casos, o dano também é permanente. "Esse tipo de situação gera na criança sentimentos negativos - como a culpa - e problemas de autoestimae autoimagem, que levam ao baixo rendimento escolar e dificuldades no relacionamento com outras pessoas, por exemplo", aponta Volpi. "Da mesma forma, se a criança for mantida protegida dessas experiências, ela terá chances muito maiores de se tornar independente, autônoma, ter sucesso nos estudos e, no futuro, lidar melhor com situações de perigo."

O bombeiro hidráulico Nadir Alves Moreira, 49 anos, demorou mais de quatro décadas para sentir os efeitos de uma infância cheia de adversidades. Nascido na zona rural de Cavalcanti (GO), com 10 irmãos, ele nem se lembra quando começou a trabalhar. "Desde que me entendo por gente eu já trabalho, mas, com 12 anos, passei a fazer isso como gente grande", relembra Nadir, que hoje mantém cuidados constantes com a hipertensão recém-descoberta.

Assim como Maicon Carvalho, ele também acredita que se tivesse aproveitado melhor a infância, talvez sua saúde hoje fosse melhor. "Infelizmente, não deu. Com muitos irmãos e morando na roça, tive que começar a trabalhar muito cedo", justifica. "Agora, o jeito é cuidar dos meus filhos, que ainda são pequenos. No caso deles, ainda dá tempo de prevenir", completa o pai, enquanto leva os espoletas Ana Carolina, 10 anos, e Marcos, 8, ao posto de saúde para um consulta de rotina. (Diario de Pernambuco, Brasil, 03/09/2010)


Remédio pode despertar vírus "adormecido"

Brasília - Estudo realizado por pesquisadores franceses concluiu que algumas formas de alergia medicamentosa são, na verdade, ocasionadas pelo despertar de vírus "adormecidos", e não o resultado de uma reação do organismo ao remédio como se acreditava. "A síndrome da hipersensibilidade, assim chamada porque o sistema imunológico reagiu excessivamente, surge pelo menos três semanas após a administração do medicamento", indicou a pesquisa, publicada na revista norte-americana Science Translational Medicine.

Rara, essa síndrome "simula um quadro infeccioso - febre, gânglios, erupção cutânea - e pode atingir os pulmões, os rins, o fígado e o coração", segundo informações do professor Philippe Musette, coordenador da pesquisa, que consumiu sete anos de trabalhos. "A mortalidade é de cerca de 10%", destacou Musette.

Os medicamentos - normalmente os antiepiléticos, os antibióticos, e também o allopurinol (contra a gota) - despertam, em algumas pessoas que seriam geneticamente predispostas, o vírus de Epstein Barr (EBV/VEB), da família Herpes (herpes, varicela-zoster, HHV6, CMV-mononucleose, etc.), que normalmente fica em estado "adormecido" no organismo. "O risco de hipersensibilidade a um antiepilético como o Tegretol (carbamazepina) é de 1/8.000", assinalou.

Hipersensibilidade - Participaram da pesquisa 40 pacientes que apresentavam hipersensibilidade ou a chamada reação Dress (uma reação ao medicamento com excesso de linfócitos sanguíneos eosinófilos ligados à alergia e aos sintomas alérgicos cutâneos e viscerais).

Em 76% dos pacientes, os pesquisadores observaram a multiplicação do vírus (EBV) no sangue. Em relação às células imunológicas (linfócitos T CD8+, em particular), a maior parte da reação é dirigida contra as partículas virais. "Até então, pensávamos que a reação ocorria contra o medicamento e, pela primeira vez, provamos que o medicamento reativa o vírus e que isso desencadeia a alergia", afirmou o pesquisador. Ou seja, O organismo luta na verdade contra a invasão e contra a reativação viral desencadeada pelo medicamento.

Segundo Musette, o tratamento de algumas dessas manifestações alérgicas poderá evoluir com a administração, além da interrupção do medicamento em questão, de "corticoides e, na falta de algo melhor em casos extremamente graves, de antivirais pouco ou parcialmente eficazes (do tipo ganciclovir)". (Diario de Pernambuco, Brasil, 03/09/2010)
 
 
 
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